Zing
Zing é um cara bacana. Bastante
simples para os padrões humanos, mas ainda assim
bastante sociável entre seus pares e até
mesmo integrantes de outras espécies. Na verdade,
é exatamente essa característica que fez
dele um cara tão importante. Zing não
é o seu nome verdadeiro, se é que ele
possui algum. É graças a ele e um sem
número de outros como ele, que eu e você
estamos aqui. Zing é um átomo de carbono
e completa 9 bilhões de anos amanhã. E
você está prestes a conhecer a sua história.
Zing nasceu do choque entre um átomo
de berílio e um átomo de hélio
dentro de uma estrela três vezes maior que o nosso
sol, na galáxia de Andrômeda, 9 bilhões
de anos atrás. Seu primeiro meio bilhão
de anos foi bastante monótono, aprisionado no
centro da estrela devido à sua enorme força
gravitacional. Mas como toda estrela massiva, esta esgotou
o seu combustível com certa rapidez e explodiu
numa supernova 8 bilhões e meio de anos atrás,
arremessando nosso amigo Zing e outros zilhões
de átomos através do espaço. O
impulso inicial foi tão grande que Zing acabou
cruzando os limites da galáxia de Andrômeda
alguns milhões de anos depois e começou
sua viagem em direção à nossa galáxia,
a Via Láctea.
A viagem não foi sem incidentes...
Quase foi absorvido por um buraco negro ainda antes
de deixar andrômeda, o que causou o desvio em
sua trajetória que fez com que ele viajasse na
direção da nossa galáxia, e quase
se chocou com uma partícula de antimatéria,
um antipróton, no meio do caminho. Se o choque
tivesse acontecido, Zing teria sido destruído
e deixado apenas uma pequena radiação
de fundo como lembrança. Mas isso não
aconteceu e 2 bilhões de anos depois de partir
de Andrômeda ele se aproximava da Via Láctea.
Sua viagem estava terminando, e depois de algumas centenas
de milhões de anos ele estava se estabelecendo
em uma nuvem de gás oriunda da explosão
de uma outra estrela, num dos braços da espiral
a aproximadamente 30 mil anos-luz do centro da galáxia.
Lá ele finalmente se reencontrou com inúmeros
outros átomos de carbono, ferro, chumbo, urânio
e todos os outros elementos naturais da tabela periódica,
que foram expelidos em outras explosões estelares
na nossa e em outras galáxias. Zing na verdade
fazia parte de um grupo bastante restrito de imigrantes.
Com o passar do tempo, a nuvem foi se
condensando e ganhando velocidade angular (começou
a girar mais e mais rápido), fazendo com que
os elementos mais pesados se concentrassem nas regiões
exteriores da nuvem, enquanto os elementos mais leves
se mantiveram no centro. Num processo relativamente
simultâneo acontecido entre cinco e meio bilhões
e quatro e meio bilhões de anos atrás
a parte central deu origem ao nosso Sol, e as regiões
periféricas se condensaram separadamente nos
9 planetas que conhecemos hoje.
E lá estava Zing, nas regiões
periféricas de uma imensa bola de fogo que depois
de resfriada daria origem ao nosso planeta. 4 bilhões
e meio de anos atrás, comprimido junto com outros
átomos de carbono dentro de um mineral de composição
cristalina que mais tarde viríamos a chamar de
grafite, ele aguardava calmamente pelas enormes tempestades
que iriam varrer a superfície do planeta e levá-lo
para um dos primeiros oceanos, caldos primitivos onde
a vida teria se originado por volta de 4 bilhões
de anos atrás. Zing nessa época ocupava
o cargo de átomo de carbono de uma molécula
de metano.
Graças à energia oferecida
pelas imensas tempestades na forma de raios, vários
compostos orgânicos começaram a se formar,
e Zing foi integrante de cada vez mais complexas cadeias
de polipeptídeos, até se formarem as primeiras
moléculas capazes de auto-reprodução
espontânea, moléculas primitivas de DNA.
Os assentamentos das placas tectônicas criaram
o primeiro continente, e Zing se viu preso em uma lagoa
em uma região repleta de atividade vulcânica,
o calor vindo do solo fornecendo a energia necessário
para o desenvolvimento de formas ainda mais complexas,
e os primeiros organismos procariontes, Zing parte de
um deles, apareceram por volta de 3.8 bilhões
de anos atrás.
Mas mais um acidente iria influenciar
a vida do nosso protagonista. Uma enorme erupção
vulcânica acabou por vaporizá-lo junto
com a lagoa que era o seu lar e ele se viu mais uma
vez vagando pela atmosfera na forma de gás carbônico.
E assim ficou até que por volta de 2 bilhões
e meio de anos atrás foi absorvido por uma bactéria
cianófila que vivia na superfície do oceano,
um dos primeiros organismos capazes de realizar a fotossíntese.
Desde então Zing tem subido os
degraus das cadeias evolucionária e alimentar.
Por algumas vezes ainda rondou pela Terra de forma livre,
mas no decorrer do último bilhão de anos
ele foi parte de, entre outros, uma primitiva água-viva,
diversas espécies de trilobitas, dos primeiros
moluscos, peixes cartilaginosos, peixes ósseos
como o celacanto, anfíbios e répteis primitivos,
até 150 milhões de anos atrás fazer
parte de um dos primeiros dinosauros.
Foi passando de dinossauro em dinossauro,
às vezes sendo capturado por uma planta ou árvore
primitiva, e depois sendo novamente incorporado a um
dinossauro herbívoro. E assim foi quando 65 milhões
de anos atrás, de novo por uma obra do acaso,
depois de um enorme meteoro ter atingido o Golfo do
México e causado a morte gradual dos grandes
lagartos que Zing teria feito pela primeira vez parte
de uma nova classe de animais, os primeiros mamíferos,
quando a carcaça de seu hospedeiro foi devorada
por pequenas criaturas peludas do tamanho de um gambá.
E dois milhões de anos atrás,
Zing estava presente no organismo de um dos primeiros
hominídeos. Conforme estes foram se mudando para
o topo da cadeia alimentar e não eram mais devorados,
Zing passou a repetidamente fazer parte de um ciclo
em que hora era devorado na forma de um outro animal
ou planta, ora era repassado para o meio ambiente pela
ação das bactérias necrófagas
que decompunham o corpo do qual ele fazia parte.
Esse ciclo se repetiu até 123 anos
atrás, quando uma mulher se alimentou de um filé
de carne bovina, e engoliu Zing. Essa mulher estava
grávida e Zing, junto com um aminoácido
que o continha, foi passado pelo cordão umbilical
para um feto em processo de formação,
e foi acolhido em uma molécula de DNA que faria
parte de um dos neurônios dessa criança.
A criança nasceu, cresceu, e teve
uma vida cheia de alegrias e tristezas, e que agora
se aproxima do fim. Mas Zing sempre foi uma companheiro
fiel, ajudando na decodificação e produção
de uma enzima catalizadora do processo de transmissão
de sinais elétricos entre as sinapses. Não
seria errado dizer que ele tem uma ponta de participação
neste relato que escrevo.
Você deve achar que depois de viajar
e viver por tanto tempo, Zing estaria cansado. Mas não.
Neste período, incontáveis átomos
decaíram e desapareceram, mas Zing segue em plena
forma. Tanto que ele acha que já está
na hora de mudar de ares. Amanhã, dia 31 de maio
de 2087, irei falecer. Serei cremado, e minhas cinzas,
Zing incluído, embarcarão em uma urna
numa viagem pelo espaço. Quem sabe nosso herói
não fará parte de uma nova saga de vida
e morte em algum outro sistema solar ou mesmo galáxia,
até o dia em que ele decair ou o nosso universo
chegar ao fim. Conhecendo Zing como eu conheço,
não apostaria na primeira hipótese.
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