Terrorismo no piloto automático
No dia seguinte ao ataque às torres
do WTC eu escrevi um texto
no qual eu afirmava que não obstante a dor da
perda de todas as vidas humanas e prováveis mudanças
na política externa americana, em pouco tempo
o mundo voltaria ao normal. Talvez eu tenha exagerado
a minha confiança na racionalidade do ser humano,
porque um ano e meio depois, parece que o mundo está
longe de voltar ao “normal”. Um sinal, infelizmente,
de que o terrorismo venceu.
O terrorismo segue algumas premissas básicas.
Primeiro, o seu objetivo nunca é destruir o seu
alvo, tendo em vista que dessa forma ele perderia a
sua razão para existir. Mais do que isso, o terrorismo
parte da consciência de que é virtualmente
impossível destruir este alvo. A linha de atuação,
então, é criar o maior barulho possível,
destruir o máximo que se conseguir de uma tacada
só, e deixar o medo e a irracionalidade da própria
vítima terminar de fazer o trabalho.
Em sua imensa maioria, se não totalidade,
o terrorismo é injustificável, e deve
ser combatido. Entretanto, cuidados precisam ser tomados
para que a paranóia subseqüente a um ato
terrorista acabe não tendo efeitos ainda mais
perniciosos do que o ataque em si.
Milhares de pessoas morreram nos ataques
ao WTC (por volta de 3 mil), e a dor da perda destas
vidas com razão se alastrou pelo mundo. Não
tenho a menor intenção de minimizar o
sofrimento daqueles que possuíam amigos ou parentes
na lista de vítimas, ou que viram suas famílias
e estabilidade ruírem junto com as torres. Pretendo
apenas analisar as reações frente ao ocorrido,
e suas evoluções até os dias de
hoje, de maneira racional, sem negar que tenho a vantagem
de escrever depois destas terem ocorrido, e antes talvez
até acreditasse que elas fossem válidas.
O rancor, o medo, e todas as outras manifestações
emocionais nos dias que se passaram aos ataques eram
justificáveis. Toda a mobilização
ocorrida, aumentando-se as rotinas de segurança
pelo país inteiro era até mesmo necessária,
tendo em vista a possibilidade de novos ataques acontecerem.
Com o passar do tempo, no entanto, estes medos, que
deveriam ter cedido, acabaram aumentando. Talvez caiba
incluir alguma culpa na máquina de propaganda
do governo americano, preocupado com sua própria
agenda, na época ainda obscura. Talvez a mídia
também tenha sido conivente com esta situação.
Mas antes de chegar a conclusões, vale comparar
os danos reais, em vidas humanas e propriedades, causados
pelo ataque ao WTC, com os de outros eventos catastróficos,
ou mesmo outros problemas sociais e de saúde
cotidianos que, na ponta do lápis, também
matam milhares de pessoas diariamente, e não
recebem nem de perto a mesma atenção.
Esta comparação, invariavelmente, nos
leva a crer que as reações diante do WTC
atingiram proporções descabidas.
Uma morte desnecessária já
é demais. 3.000 mortes, então, seria milhares
de vezes pior. Mas se levarmos em consideração
apenas a perda de vidas humanas, o que dizer das 20.000
mortes ocorridas no terremoto que sacudiu a Índia
um pouco antes, no mesmo ano, e que hoje praticamente
já foi esquecido? Poderia-se argumentar que as
mortes foram ocasionadas por um terremoto, uma catástrofe
natural imprevisível e sobre a qual nada se poderia
fazer, enquanto o ataque terrorista é um ato
de seres humanos malignos que continuam a solta e não
só podem como devem ser caçados. Este
raciocínio, no entanto, seria um tanto míope.
Afinal, da mesma forma que o ataque terrorista provavelmente
se aproveitou de uma falha na rede de inteligência
americana e da segurança nos aeroportos, gastos
com melhores moradias na Índia teriam claramente
poupado milhares de vítimas. Também, gastos
com pesquisas envolvendo o comportamento das placas
tectônicas e suas respectivas atividades sísmicas
poderiam trazer um melhor entendimento a respeito dos
terremotos e prevenir novas mortes que certamente também
virão a acontecer (ou alguém acredita
que os terremotos irão nos dar uma trégua
enquanto nós decidimos cuidar do terrorismo?).
É fato que todos os terremotos ocorridos neste
século mataram muito mais do que todos os ataques
terroristas, mas não vejo os mesmos bilhões
e bilhões de dólares gastos com segurança
nacional desde 11 de setembro aplicados em pesquisas
sobre terremotos e sua prevenção. Longe
de dizer que qualquer compensação financeira
poderia diminuir a dor da perda de um parente querido,
também não é sem ironia que vejo
órfãos e viúvas de famílias
abastadas recebendo 1.5 milhão de dólares
por vítima no WTC, enquanto as milhares de famílias
atingidas na Índia têm como conforto continuar
passando fome.
Talvez minha comparação
seja injusta. Afinal, terremotos hoje já são
eventos razoavelmente controlados nos EUA, e as baixas
humanas tendem a ser mínimas. Isso não
é o mesmo em países pobres, mas, afinal,
é do dinheiro americano que estamos falando,
e pelo menos alguns poderiam dizer que este deve ser
utilizado para resolver os problemas americanos. Ok.
Então mudemos de tática.
Anualmente, nos EUA, morrem mais de 30
mil pessoas em acidentes de trânsito. Por mais
que estas mortes aconteçam muito mais esparsamente,
não se pode chamá-las de desejáveis,
e a dor da perda nas famílias certamente não
é menor. E se poucas destas mortes podem ser
creditadas a atos malignos intencionais, pura estupidez
não é um motivo mais nobre. Se a mesma
atenção fosse dedicada a aumentar a segurança
das estradas e veículos e a esforços de
prevenção do uso do álcool enquanto
se dirige, certamente a quantidade de vidas salvas por
dólar gasto seria muito maior do que o ocasionado
pelo aumento irracional das precauções
na segurança nacional.
Ironicamente, em 2001, o CDC (Center for
Disease Control) previu que em torno de 20.000 pessoas
iriam morrer por complicações em casos
de gripe no inverno que se seguiria, e que muitas dessas
mortes poderiam ser evitadas com uma campanha de vacinação.
Infelizmente, estes alertas ficaram enterrados sob pilhas
de jornais noticiando a morte de alguns poucos contaminados
por antraz, alimentando uma paranóia nacional
que quase interrompeu por completo o funcionamento dos
correios americanos, por mais que os especialistas afirmassem
que os riscos de contaminação por antraz
eram mínimos, se não negligíveis.
A crise das companhias aéreas não
foi causada pelos ataques, mas pelo medo irracional
dos americanos em continuar utilizando o transporte
aéreo, quando, com a exceção de
11 de setembro e da queda de um avião em Queens
em novembro (que aliás matou mais passageiros
do que os que estavam nos quatro aviões utilizados
no ataque), nenhuma outra vítima fatal foi registrada
durante todo o ano. O mesmo vale para muito da recessão
em que entrou a economia americana no ano seguinte.
É claro que nem todos os gastos
com segurança são excessivos. Certamente
cuidados com o reforço na segurança de
certos alvos prioritários e em situações
que poderiam causar muitas mortes, como no ano novo
ou num Superbowl, por exemplo, são necessários.
Mas quando bilhões de dólares são
gastos pelo país inteiro para reforçar
a segurança de cada prédio anônimo,
mesmo em pequenas cidades do interior que certamente
não estariam no topo da lista de Bin Laden, fica
claro que a paranóia foi longe demais, e o terrorismo
cumpriu com seu objetivo.
O ataque ao WTC não matou apenas
3 mil pessoas. Matou e continuará a matar dezenas
de milhares, pelo menos, ao fazer com que verbas muito
mais necessárias nas áreas de pesquisa,
saúde e educação sejam desviadas
para a segurança nacional e esforços de
inteligência, sem mencionar os gigantescos gastos
com a guerra. E, ao olharmos para os eventos com a clareza
que a razão nos outorga, invariavelmente teremos
que concordar que a maioria dos danos causados após
este inimaginável ataque terrorista foi ocasionada
não pelo ataque em si, mas pelas reações
desesperadas dos próprios americanos.
Contra-atacar e eliminar possíveis
ameaças terroristas é uma medida sensata,
e deve ser perseguida, de forma incansável. Mas
a maior derrota que se poderia impor ao terrorismo,
e a mais barata, é combater o medo irracional
e a paranóia com o qual os terroristas contam
como catalizadores de seus esforços genocidas.
Infelizmente, me parece que o caminho errado tenha sido
adotado.
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