A Sombra do Vampiro...

Ao contar a suposta história das filmagens de Nosferatu de Murnau apoiando-se na idéia de que Max Schreck seria um vampiro de verdade, o filme deixa de primar pelo rigor histórico. Mas se ignorarmos o fato de que as dúvidas a respeito do background do protagonista são infundadas, tendo em vista os mais de 35 filmes em seu currículo, a obra de E. Elias Merhige têm seus méritos. A ambientação é muito boa. O filme reconstrói com sucesso o cenário da cinematografia em seus primeiros passos. As limitações técnicas, a artificialidade das atuações, os escassos recursos logísticos, todos estão lá, embelezados pela fotografia de Lou Bogue, que também assina o clássico O Iluminado, de Kubrick. Mas o cerne no roteiro fica na dicotomia entre os personagens de John Malkovich e Willem Dafoe. Dicotomia aparentemente moldada de forma a nos fazer pensar: "Quem será o verdadeiro vampiro, aquele que o faz intencionalmente ou o que o faz por falta de escolha?".

Malkovich recria um Murnau disposto a sacrificar a tudo e a todos em busca de sua utópica pureza artística, em busca de seu filme perfeito, fantasia tornada realidade (ou será o contrário?), vampirizando até mesmo o vampiro. Enquanto Dafoe impecavelmente retrata um vampiro decadente, velho, fraco, apenas a casca dos que estamos acostumados a ver, altivos e charmosos, na maioria dos filmes sobre o tema, e que precisa se sujeitar aos caprichos de Murnau para conseguir o sangue da bela Greta Schroeder, sua "Mina Harker". A indicação para o Oscar não veio por acaso. Dafoe me impressionou com sua atuação em diversos momentos, incluindo sua interessante visão a respeito do próprio livro de Bram Stoker, "Drácula", obra que trouxe de vez o mito vampírico para o imaginário ocidental. O que vemos durante o filme é o fim de um mito, e o início do que seria considerada a sétima arte. O roteiro tem suas falhas, e a sobreposição do Nosferatu original com as cenas mostradas no filme não é perfeita. Mas para os amantes do gênero, o filme deverá ter um cantinho reservado na estante.

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