Romeroscar

Romeroscar nasceu desconfiado. Desconfiado e teimoso. Na hora do tapinha, mordeu o lábio mas não chorou. Só abriu o segundo olho depois de três meses, e ainda assim quando teve certeza de que não havia ninguém por perto. A primeira palavra que aprendeu foi “não”, e a primeira frase, “por que não?”. Foi o único caso registrado de expulsão do maternal de que se tem notícia. Mais de uma vez seus pais, muito pacientes, tiveram que mudar de vizinhança nos seus primeiros dez anos de vida. Acabaram optando por um esquema de tutelagem domiciliar, e depois que seu sexto professor particular se suicidou ingerindo um frasco de Liquid Paper – dizem que a morte foi agonizante, apesar do sorriso de alívio em seu rosto -, passaram a educá-lo eles mesmos. A verdade é que ele era um aluno brilhante. Mas teimava em fazer tudo do seu próprio jeito, inventando novas fórmulas para solucionar os problemas que apareciam, mesmo que isso levasse muito mais tempo que os métodos tradicionais. Um pouco depois de os seus pais terem adquirido o hábito de alugar filmes de gosto duvidoso sobre o Anticristo, Romeroscar conheceu a garota que mudaria a sua vida.

Suélen Cristina era a antítese de Romeroscar. Inocência em pessoa, já era a feliz proprietária da Estátua da Liberdade, da Torre Eiffel e da Lua, entre outros famosos empreendimentos imobiliários, comprados em verdadeiras barganhas de seus colegas de escola, alguns mais de uma vez. Se encontraram em uma biblioteca pública, quando Romeroscar desmascarou um garoto gordinho que tentava vender a Suélen uma estrela do catálogo Messier de objetos celestes que tomara emprestado da seção de Astronomia.

Romeroscar era alto, de compleição forte, tinha olhos escuros penetrantes e cabelos da cor do Sol. Suélen não era bonita. Pelo contrário, suas formas quase cubistas conseguiam desafiar com folga todos os padrões de beleza já vigentes na história da humanidade. Foi amor à primeira vista. Tornaram-se inseparáveis pelos quatro anos que se seguiram. Romeroscar teimava com tudo e todos, menos com Suélen, já que nesse caso a teimosia estava justamente em ouví-la. Até o dia em que, por sugestão dela, pela primeira vez aceitou abrir um daqueles insossos biscoitos da sorte chineses, pronto para ler um pensamento genericamente benevolente e inofensivo. Dentro, o pequeno pedaço de papel dizia: “Sofrerás um acidente de trânsito por causa da sua única paixão”. “Que diabos de biscoito da sorte era aquele?”, pensou Romeroscar, desconfiado – “Seria uma travessura de um empregado descontente da fábrica de biscoitos?”

Travessura ou não, o estrago estava feito. Nunca mais conseguira tirar aquela frase da cabeça. Ávido por encontrar soluções mirabolantes para seus problemas, acabou ficando obcecado pelo assunto. A primeira atitude que tomou foi rasgar a sua carteira de habilitação. Em questão de meses, começou a tratar Suélen primeiro com indiferença, depois com agressividade. “E se o biscoito estiver correto?” – teimava consigo mesmo. Quando se formou em biologia, no ano seguinte, finalmente tomou uma decisão.

Revelou a uma Suélen aos prantos o plano que refutaria de uma vez por todas aquele futuro escrito num pedaço de papel. Decidiu se especializar em zoologia e dedicar a sua vida a estudar a fauna da savana africana. Fez os preparativos, engoliu a tristeza de modo resoluto, e pouco tempo depois embarcou para o Zimbabue.

Por duas décadas, teve uma brilhante carreira como zoólogo, defendendo a preservação do hábitat de espécies em extinção. Por vezes até mesmo esquecia do seu passado com Suélen, e nunca mais se envolveu com ninguém. Os guias nativos, obrigados a suportar a sua teimosia, pediam sem muito empenho que ele fosse mais cuidadoso. Mas Romeroscar nunca se sentira tão seguro em toda a sua vida. Viveu alí, no meio do nada, tendo como companhia apenas a população indígena e os animais selvagens, com a certeza de que havia triunfado na batalha contra o biscoito, até o dia de sua morte.

No local, permanece erguida até hoje a enorme e reluzente estátua em homenagem ao rinoceronte que o atropelou.

* Romeroscar foi originalmente publicado na segunda edição da revista Cortante (http://www.cortante.com.br).

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