O centésimo macaco inventou a
ressonância mórfica (Uma análise
crítica das idéias de Rupert Sheldrake).
Ressonância Mórfica foi um
termo cunhado por Rupert Sheldrake para o que ele pensa
ser " a base da memória na natureza...
a idéia de uma misteriosa forma interconexões
telepáticas entre organismos e de memória
coletiva dentro das espécies.".
Sheldrake recebeu sua educação
formal segundo os preceitos da ciência do século
XX - ele é formado em bioquímica pela
Cambrige University (1967) - mas tem mais simpatia por
Goethe e o "vitalismo" do século
XIX (1). Além
disso, ele é um membro praticante da Igreja Anglicana,
e acredita fielmente em conceitos religiosos como a
santíssima trindade e a reencarnação
de Cristo. Ao invés de passar a sua vida tentando
entender e aprimorar conceitos que chama pejorativamente
de "mecanicistas", prefere, segundo ele mesmo,
"pensar além dos paradigmas da ciência".
O que é um eufemismo para um mergulho de cabeça
no ocultismo e na paranormalidade. Trocando em miúdos,
ele trocou a ciência pela metafísica, e
acha que pode praticar a segunda mas dizer que está
praticando a primeira.
Entre seus aclamados livros estão
Dogs That Know When Their Owners Are Coming Home:
And Other Unexplained Powers Of Animals e Seven
Experiments That Could Change The World: A Do It Yourself
Guide To Revolutionary Science. Neste último
ele afirma que segundo suas pesquisas as pessoas conseguem
perceber quando alguém está olhando pra
elas. Estudos sérios e objetivos falharam em
colher os mesmos resultados, e já foram expostos
problemas na metodologia utilizada por Sheldrake nestes
"experimentos revolucionários" (2).
Quando confrontado com relação a estes
problemas, ele poderia refazer seus experimentos, agora
de forma mais adequada, o que então daria credibilidade
a seus estudos. Entretanto, ele preferiu distribuir
seus experimentos falhos em seu próprio site,
clamando a todas as crianças e cientistas amadores
que os realizem em casa e nas escolas.
Este não é, no entanto,
o único crime de Sheldrake contra a ciência
séria. Seus livros são análogos
às viagens de Alice pelo País das Maravilhas,
relatando uma enorme quantidade de coisas que poderiam
ser verdade, mas não o são.
Enquanto o resto da comunidade científica
tenta entender melhor a tendência da matéria
em seguir padrões que aprendemos a chamar de
leis da natureza, Sheldrake e seus seguidores afirmam
que esses padrões não passam de um tipo
de memória que não é determinada
pelas características intrínsecas da matéria,
mas simplesmente por repetição. Essa memória,
ou ressonância mórfica seria transmitida
através de "campos morfogênicos",
o que permite por sua vêz que a informação
seja transmitida misteriosamente e milagrosamente por
quaisquer distâncias de espaço e tempo
sem perda de energia e sem alteração no
conteúdo. Dessa maneira está aberto o
espaço tanto para a transmissão física
quanto "psíquica" de informação.
Como ele mesmo afirma:
"...não é nem um
pouco necessário que assumamos que as características
físicas dos organismos estejam contidas nos genes,
que podem de fato apenas ser análogos a transistores
sintonizados nas freqüências apropriadas
para transformar informação invisível
em sua forma visível. Desta forma, campos morfogênicos
estão localizados de forma invisível dentro
e ao redor dos organismos, e podem responder por fenômenos
inexplicáveis de outras formas, como a regeneração
de membros decepados de salamandras e platelmintos,
"membros fantasmas", as propriedades holográficas
da memória, telepatia, e a cada vez maior facilidade
com a qual novas habilidades são aprendidas quando
mais e mais pessoas as aprendem."
Enquanto essa proposição
metafísica realmente parece encontrar um espaço
para a telepatia, ela ignora completamente o conceito
conhecido como "navalha de Occam". A navalha
de Occam é um conceito que prega que quando duas
ou mais explicações diferentes existem
para um determinado fenômeno, a mais simples delas
provavelmente é a verdadeira. Coisas como a regeneração
em alguns anfíbios e invertebrados (que merece
um outro texto), "membros fantasmas"
(3), e a memória (que não
precisa ter algo de holográfica, por sinal) podem
ser explicadas sem a adição dessa bagagem
metafísica da ressonância mórfica
(4). E a noção
de que quanto mais pessoas aprendem alguma nova habilidade,
mais facilmente outras pessoas as adquirem também,
conhecida como fenômeno do centésimo macaco,
não tem nenhum fundamento concreto
(5).
Apesar de sua formação acadêmica,
Sheldrake claramente abandonou a ciência para
abraçar a metafísica, a teologia e a filosofia.
Isto lhe retira o direito de se posicionar como um cientista
sério e exigir respeito com base em sua educação
como bioquímico. Ele é apenas mais um
em uma crescente onda de novos cientistas "alternativos"
que, talvez por ressentimento relacionado com a ausência
de espiritualismo nos paradigmas modernos da ciência,
e das suas implicações amorais, criaram
seus próprios paradigmas. Estas idéias
não são novas, apesar das terminologias
o serem. Estas incluem anjos, telepatia, cães
paranormais, e a esperança por um futuro onde
todos viverão em harmonia, rodeados por amáveis
vizinhos que nunca terão ouvido falar em guerra
biológica, bombas nucleares, clonagem ou beterrabas
transgênicas.
Notas:
1 - Vitalismo é
a doutrina metafísica que prega a existência
de uma energia interna, algo imaterial, que dá
vida aos organismos. Os vitalistas acreditam
que as leis da física e da química não
são suficientes para explicar o fenômeno
da vida. É o oposto do materialismo mecanicista
e sua idéia de que a vida simplesmente surge
de uma combinação complexa de matéria
orgânica. O princípio do vitalismo atende
por diversos nomes, como chi (China), prana
(Índia), ou ki (Japão), ou
simplesmente energia vital. Voltar
2 - Dois experimentos
realizados pelo psicólogo Robert A Baker obtiveram
resultados diferentes dos defendidos por Sheldrake,
ou seja, não indicaram qualquer capacidade em
reconhecer quando se está sendo observado. Seus
experimentos são simples e podem ser duplicados
facilmente. Para maiores detalhes a respeito das metodologias
e resultados, visite esta
página.
Os cientistas David F. Marks e John Colwell
realizaram um estudo sobre os experimentos de Sheldrake
e concluíram que eles são falhos por não
utilizarem seqüencias realmente aleatórias
para determinar os períodos de observação
e "não observação". Como
os experimentos fornecem um feedback aos participantes
dos testes, ficou evidenciado que os resultados foram
influênciados pela capacidade dos participantes
em reconhecerem os padrões deste feedback
na hora de escolher suas respostas. Maiores detalhes
aqui.
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3 - Membros fantasmas
(tradução de "ghost limbs")
se refere ao fato de pessoas que tiveram membros amputados
ainda terem sensações de tato, ou dor,
por exemplo, como se o membro ainda estivesse ali. Condicionamento
do nosso cérebro e o corte abrupto dos nervos
no local estão entre alguns dos fatores que explicam
essa sensação, e são muito mais
plausíveis do que os campos morfogênicos.
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4 - Memória é
a retenção de informação,
experiências pessoais e procedimentos, e a habilidade
de trazer a tona essas informações quando
necessário. O processo de relembrar envolve pelo
menos 3 fatores importantes:
a) Memórias são construções
feitas de acordo com necessidades, desejos e influências
presentes.
b) Memórias freqüentemente
acompanham sensações e emoções.
c) Memória normalmente envolve
a consciência de que existe a própria memória.
Nós não sabemos exatamente
como a memória funciona, apesar de existirem
diversos modelos explanatórios para ela. Alguns
identificam memória com funções
cerebrais. Memória diminui com a idade porque
nossos neurônios morrem conforme ficamos velhos.
E seguindo essa linha, alguns estudos obtiveram sucesso
em fazer a memória funcionar melhor através
do uso de substâncias chamadas de "drogas
da memória".
Para aqueles que acreditam que a memória
é função de alguma realidade não
material, estes dois fatos são apenas alguns
dos que deveriam causar reflexão. De qualquer
maneira, diferente dos que consideram a memória
algo físico, estes não parecem conduzir
no momento qualquer estudo que possa beneficiar a humanidade
nesse aspecto. Voltar
5 - O fenômeno do
centésimo macaco se refere a um repentino e espontâneo
salto de consciência que acontece quando um suposto
ponto de "massa crítica" é alcançado.
Ele afirma que se pessoas suficientes começaram
a pensar em acabar com a miséria no mundo, por
exemplo, com o tempo, acontecerá, num determinado
momento, um salto no qual de repente todas as pessoas
começarão a pensar em acabar com a miséria.
O nome do fenômeno vem de um experimento feito
na década de 50 por pesquisadores japoneses.
Lyall Watson alegou em seu livro Lifetide que
um macaco ensinou outro a lavar batatas, que ensinou
outro, que ensinou outro, que ensinou outro, e, logo,
todos os macacos na ilha estavam lavando as suas batatas.
Mas a história não para aí. Quando
o "centésimo" macaco aprendeu a lavar
as batatas, repentinamente todos os macacos em outras
ilhas que nunca haviam lavado batatas antes passaram
a fazê-lo.
Por mais simpática que essa história
seja, ela não é verdadeira. Ou pelo menos
a parte em que ela se refere à transmissão
de informações culturais através
do espaço sem nenhum contato não é
verdade. Havia macacos que lavavam as suas batatas.
Um começou e logos outros se juntaram a ele.
Mas mesmo depois de seis anos nem todos os macacos percebiam
a utilidade de lavar as batatas na água do mar.
Lyall simplesmente inventou a parte da transmissão.
É simplesmente uma mentira deslavada, que é
aceita por "cientistas da nova era" como Ken
Keyes e Rupert Sheldrake como se fosse verdade. Keyes
chegou ao ponto de, no seu livro The Hundreth Monkey,
afirmar que "...existe um ponto no qual se apenas
uma pessoa a mais se sintonizar em uma nova percepção,
o campo é fortalecido de forma que essa percepção
seja apreendida por praticamente todo mundo!".
Isso parece estar funcionando na hora dessa própria
teoria se espalhar, mas a causa, ao invés da
suposta ressonância mórfica, é tão
somente a própria estupidez humana.
Estupidez que gerou projetos como o M100,
ou esse sobre "morphogenics
and monkeys". Este último, aliás,
contém todas as informações mais
recentes a respeito de como criar e aprimorar seu campo
de energia interno, suas portas de percepção,
cura psíquica e outras maravilhas no novo milênio.
Para quem estiver interessado em alguma informação
mais séria sobre os experimentos com os macacos
e sua ligação com estes novos gurus, este
artigo é uma boa pedida. Voltar
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