Querer não cria verdades
Quando digo a alguém que não
acredito em almas, espíritos, reincarnação
e afins, não entendo porque acham que eu o faço
por vontade própria, simples escolha. A idéia
de vida após a morte é por deveras atraente
para que alguém possa em sã consciência
dizer que não gostaria que ela fosse verdadeira.
Até mesmo eu, que não sou são,
gostaria. Entretanto, não permito que os meus
desejos e anseios pessoais turvem a minha visão
do mundo. A natureza efêmera da vida humana, evidenciada
nos últimos dias, suscita a busca pelo sobrenatural.
Não nos basta ser um fruto de bilhões
de anos de um processo evolutivo que nem um Buda saturado
de ácido conseguiria imaginar. Não basta
que deixemos nosso legado nas nossas obras de vida e
nas gerações futuras que ajudamos a criar.
Precisamos acreditar que alguma coisa continuará
viva depois que o corpo morrer. Precisamos justificar
a nossa existência. Precisamos nos fazer importantes
no grande esquema das coisas insubstanciais. É
aí que entram as almas, espíritos e afins.
Utilizando a metáfora do medo da morte como sendo
uma doença, o espírito é o placebo.
Se acreditamos nele, nos sentimos mais aptos a perseverar
num mundo cheio de injustiças. Mas quando o analisamos
com a responsabilidade que o ceticismo nos outorga,
ele se revela análogo à cápsula
do remédio que na verdade não passa de
farinha, e a doença, infelizmente, não
tem cura (ainda).
Existem duas formas de além-vida.
Numa, vivemos primeiro aqui, e quando morremos mudamos
permanentemente para um outro condomínio bem
menos sujo e barulhento (Céu), ou, se não
nos comportarmos, para um só um pouco menos sujo
e barulhento (Inferno). Esta é a visão
do Cristianismo, por exemplo. Na outra, presente no
Budismo ou no Kardecismo, em formas diferentes, a estada
na terra na verdade é apenas mais um entre um
sem número de passeios numa roda gigante. Ficamos
percorrendo o mesmo percurso até a hora em que
a gente se cansa e para de comprar ingresso (atinge
o Nirvana ou alguma outra perfeição astral),
e vai curtir um marasmo total até o fim dos tempos.
Por mais insubstancial que a alma pareça (desculpe
o trocadilho), ela tira um enorme peso das nossas costas.
Afinal, se a gente fizer cagada nessa vida, sempre pode
consertar depois.
Mas o peso que é retirado das nossas
costas não deixa de existir. Apenas é
transferido para as almas. Tenho certeza de que se elas
existissem, ficariam extremamente descontentes e passariam
a acreditar em "meta-almas", já que
a existência delas, para elas, seria tão
efêmera quanto a nossa, para nós. E as
meta-almas acreditariam em "meta-meta-almas",
e assim por diante. Portanto, ao invés de satisfazer
o meu ego e gerar uma cadeia infitita de "Escravos-de-Jó",
prefiro aprender a lidar com o peso eu mesmo. E garanto
que se você tentar pra valer, vai perceber que
ele nem é tão pesado assim quanto parece
à primeira vista.
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