Panis et Circenses
O termo foi cunhado no séc. II
pelo sarcástico poeta Decimus Junius Juvenalis,
ou simplesmente Juvenal, em seu quarto Livro de Sátiras.
Era referência clara aos grandes festivais públicos
promovidos pelo Estado Romano, em óbvia tentativa
(normalmente bem sucedida) de desviar a atenção
do povo de suas condições de vida miseráveis.
Apesar das inegáveis influências do teatro
grego, ao contrário deste, o teatro romano sempre
foi, desde o princípio, voltado para o gosto
popular. Quando o público não aprovava
determinada peça teatral, parte dos subsídios
utilizados por ela tinham que ser devolvidos ao governo.
Foi a origem do IBOPE. Hoje, pouco mudou. Com o advento
e predomínio da iniciativa privada, ao invés
de devolver dinheiro ao governo, as emissoras de televisão
sem IBOPE perdem dinheiro ao receber menos investimentos
de patrocinadores e anunciantes. Na Roma antiga, este
cenário abriu alas para as lutas entre gladiadores
e para cristãos cheios de piche serem transformados
em tochas humanas. Hoje, abre alas para programas como
os do Ratinho, Gugu, Faustão, No Limite, Casa
dos Artistas, entre muitos outros. A violência
explícita pode até ser menor. Mas a humilhação
continua a mesma.
Os veículos se tranformaram bastante
nos últimos dois milênios. Mas a outorgação
dos direitos de transmissão continua basicamente
a mesma. Canais de rádio e televisão precisam
de uma concessão do governo federal para operar
a transmissão de imagens e sons dentro de uma
faixa de frqüências pré-estabelecidas.
Devido à natureza das transmissões abertas
e a amplitude das ondas de rádio e televisão,
a faixa regulamentada permite a utilização
de, no máximo, por volta de uma dezena de canais.
E esta relação governo-corporações
gera um sem número de oportunidades para o aparecimento
de conflitos de interesse. Não é incomum
a presença de políticos na área
de telecomunicações, ou vice-versa, numa
reedição do paradoxo do ovo e da galinha.
Não é de admirar que os cuidados prestados
a itens tão importantes da existência humana,
como Educação e Cultura, dividam espaço
tão pequeno tanto no Congresso Nacional quanto
nos veículos de comunicação. Um
povo educado, culto, é indesejado em ambos os
círculos, pois isso pode gerar a busca pelo equilíbrio
na distribuição dos recursos apropriados
e utilizados de forma indevida nos dois casos.
O Povo não quer cultura. Será?
Um argumento muito utilizado, tanto pelos
que defendem os canais de televisão quanto pelos
que os criticam, é que no fim, as televisões
abertas só mostram conteúdo de baixo nível
porque é isso que o "povo" quer. Para
as televisões, o "povo" é uma
massa relativamente homogênea e fácil de
manipular. Para os críticos, o povo é
conivente e aliado das televisões. Fica a batalha
entre alguns poucos intelectualóides defendendo
princípios subjetivos, e os empresários
e políticos defendendo seus bolsos.
É contra estas duas correntes de
banalização do povo que este texto tenciona
ser utilizado. Como o povo pode não gostar de
cultura, ciência, educação, e afins,
se ele praticamente nunca tem oportunidade de travar
contato com essas coisas? Isso é o mesmo que
dizer que as crianças no Piauí não
gostam de carne, afinal, elas são raramente vistas
comendo carne. Pode-se também afirmar que elas
gostam é de pinga, já que seus pais muitas
vezes se vêem obrigados e introduzir a energia
advinda desse verdadeiro patrimônio nacional na
dieta das suas famílias, por falta de opção.
Portanto, o argumento de que o povo não gosta
de cultura é um argumento circular, hermético,
e mantenedor dessa própria disparidade cultural
entre "povo" e "elite". Pois quais
as opções do povo? Pagar 15, 30 reais
para assistir a um filme ou uma peça de teatro?
20, 40 reais para comprar um livro? Ou quem sabe mais
uns 20 reais para poder comprar um CD? Se nem a quase
extinta classe média fornece a possibilidade
de gastos freqüêntes com essas coisas, como
pode a classe pobre, para não dizer miserável?
O fato de que os únicos veículos disponíveis
a estes para a absorção de cultura sejam
os canais de massa de rádio e televisão
fecha o quadro com um ironia impossível de ser
ignorada.
Mas qual é a solução?
Como quebrar esse círculo vicioso
de interesses? Infelizmente uma dissidência faz-se
necessária nos dois lados. Políticos conscientes
de seu verdadeiro papel na manutenção
de uma democracia, que participem de esforços
na regulamentação mais apropriada das
atividades de telecomunicação no país,
tanto quanto empresários, donos e diretores de
televisão e rádio com olhos voltados para
a educação tanto quanto o lucro. Entretanto,
enquanto uma legislação mais apropriada
forçaria os canais de televisão a elevarem
a qualidade de seu conteúdo, a legislação
atual, mesmo falha, não força os canais
a mostrarem conteúdo de baixo nível. Isto
faz a responsabilidade pender mais para os empresários
de comunicação do que os políticos.
Mas, como já vimos, os dois muitas vezes são
o mesmo.
SBT versus Globo
Quando vejo tantas pessoas exaltarem a
figura de um senhor chamado Sílvio Santos, eleito
para salvar o povo donzelo das garras do Dragão
da Rede Globo, não consigo me conformar com tamanha
miopia. Pois o que fez o Senhor Abravanel, durante a
construção de seu enorme império
empresarial, para diminuir as diferenças sociais
no país? Nada. Pelo contrário, um programa
como o "Casa dos Artistas" se alimenta justamente
dessas diferenças, ao colocar um monte de gente
famosa numa gaiola para o povo comum poder observá-los.
Se colocarmos a programação da Rede Globo
e do SBT lado a lado, seremos obrigados a constatar
que, sem ignorar seus próprios defeitos, a Rede
Globo é a que tem a programação
mais rica das duas, com pelo menos alguns poucos programas
voltados para a cultura e educação. Ou
por acaso alguém já assistiu a alguma
coisa parecida com o Telecurso no SBT?
É muito fácil criar um Casa
dos Artistas, ou um No Limite. Difícil é
criar documentários, ou programas infantis como
um "Mundo De Bickman", por exemplo. Documentários
levam meses, às vezes anos, para serem criados.
Não posso negar que mesmo um empreendimento como
um canal de televisão tenha em si fins lucrativos.
Mas deveria haver limites para estes fins. Uma lei que
obrigasse, por exemplo, todos os canais de televisão
a reinvestirem pelo menos 30 ou 50% de seus lucros em
programas culturais e educativos resolveria em grande
parte esse problema. Assim, quanto mais lucrativo um
canal de televisão, mais rica teria que ser a
sua programação. Não bastaria criar
dezenas de programas de auditório ou reality
shows de baixo investimento. O dinheiro teria que ser
empregado para a criação de programas
inteligentes.
Quanto ao povo, tenho certeza que a mudança
será extremamente bem-vinda. Pois não
é preciso enxergar muito bem para ver as filas
de dobrar quarteirão que se fazem nas poucas
peças teatrais subsidiadas pelo governo, o fascínio
nos olhos de crianças pobres ao assistir a uma
ópera ou balé no Municipal, ou na quantidade
de pessoas "simples", ou povo, que lota o
Ibirapuera para assistir a shows não só
de grupos populares, mas também de música
erudita.
O "povo" quer cultura e educação,
sim. Bundas todos nós já temos. Infelizmente,
muita gente tem medo justamente disso. De que o pão
e o circo um dia não sejam mais suficientes,
e esse país se torne um lugar decente para se
viver, com um povo educado e ciente de seus direitos
e deveres.
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