Ignorância Milenar?

É bastante comum, pelo menos hoje, encontrar um "ocidental" que acredite que tudo o que o ocidente gerou é ruim e mesquinho, enquanto os orientais, com suas filosofias transcedentais, são criaturas que já haviam atingido a perfeição milhares de anos atrás. A expressão "sabedoria milenar" é tida como pleonasmo quando aplicada ao mundo do lado de lá de Bagdá, e diversas formas de medicina "alternativa", vindas em grande parte da China, ganham cada vez mais espaço em nossa sociedade.

Na base da medicina tradicional chinesa (como ela é chamada na própria China, para diferenciá-la da medicina "ocidental"), está o conceito do Qi (pronuncia-se "chi"), cuja tradução mais próxima equivaleria ao nosso "energia vital". Essa energia permeia todo o universo, incluindo seres vivos e inanimados, e é responsável pela harmonia entre todos os elementos componentes deste mesmo universo. Qualquer forma de desarmonia, doenças incluídas, advém de um desequilíbrio entre o Yin e o Yang, as duas vertentes do Qi. Quando o Qi flui livremente pelo nosso corpo, passando pelos pontos chamados meridianos, nos mantemos saudáveis. Qualquer bloqueio nestes fluxos pode ser responsável por doenças tão diversas quanto uma tuberculose, um câncer ou uma bursite, por exemplo. Basta que restituamos o fluxo natural do Qi para que essas doenças sejam curadas pelo nosso próprio corpo. Ou assim acreditam os praticantes dessa forma de "medicina".

Enquanto um estudo mais completo sobre os clamores destes praticantes e a verdadeira eficácia da medicina tradicional chinesa levará um tempo maior do que eu disponho no momento, cabem algumas observações a respeito da história recente dessa prática no seu próprio país de origem, a China.

As raízes do herbalismo chinês (desculpem o trocadilho) estão enterradas no passado. É fato que muitas das práticas possuem centenas, quando não milhares de anos de idade. Mas podemos situar o período de maior floração (de novo, perdoem o trocadilho) destas técnicas (que incluem a acunpuntura, o reikki, infusões de ervas, etc.) entre os anos de 1000 e 500 Antes de Cristo. Devido a questões religiosas, os "médicos", ou seus equivalentes no período, eram proibidos de praticar dissecação em cadáveres. Por isso, não tiveram alternativa a não ser desenvolver um conceito de medicina totalmente filosófico. De onde vieram o Qi e os respectivos meridianos. Por isso, os sistemas de órgãos descritos nos textos antigos são meramente metáforas que não têm qualquer semelhança com a anatomia humana revelada mais tarde por pioneiros da medicina científica como Vesalius e William Harvey. Obviamente, a medicina chinesa de 3.000 anos atrás não era menos evoluída do que a medicina ocidental da mesma época, e que foi dando lugar à medicina moderna. O que acontece é que da mesma forma que a nossa astronomia evoluiu desde os tempos da Grécia antiga, me parece justo que todos os avanços em anatomia, fisiologia, patologia e terapêutica dos últimos séculos tornariam estas práticas antigas obsoletas. Para quem costuma dizer que a longevidade destas práticas orientais depõe a favor de sua validade, gostaria de lembrar que coisas como o racismo, por exemplo, existem até hoje e nem por isso são "válidas".

Com o tempo, as questões religiosas foram se tornando menos predominantes, e a medicina chinesa também foi evoluindo. Devido à natureza do país, ainda extremamente agrário, a maioria da população não tinha acesso a esses avanços. Entretanto, a eficácia e a própria lógica da filosofia do Qi passou a ser questionada mais e mais, até o ponto em que o governo Kuomintang baniu diversas destas práticas em todo o país, com a argumentação de que eram inúteis, em 1929. Esta, aliás, não foi a primeira vez que isso aconteceu.

Por quê, então, estas práticas não só existem ainda hoje e são praticadas, como têm ganho tremenda força no mundo ocidental? A resposta está na revolução comunista de 49 e na subida ao poder de Mao Tse-Tung. Não exatamente por vontade própria, mas por questões práticas e políticas. Como em toda a China, na época, existiam menos de 30 mil médicos treinados, e a maioria concentrada nas grandes cidades, os revolucionários sentiram-se pressionados a fazer alguma coisa a respeito do estado precário em que se encontrava o sistema de saúde chinês. Mas com uma economia arrasada, praticamente sem nenhum dinheiro, e ainda sofrendo a hostilidade da maioria das potências ocidentais, estes não tinham nenhuma esperança de conseguir extender as técnicas da medicina moderna à toda a população, que na época já beirava os 600 milhões. A única alternativa que restou ao Partido Comunista foi passar a defender que a medicina tradicional chinesa, assim como outros aspectos de sua cultura, não eram apenas meros equivalentes, mas mesmo superiores aos métodos “imperialistas decadentes do ocidente”. O que nos leva à questão política da decisão, que reforçava o orgulho nacional e trazia algum sentimento de união a um povo já traumatizado por diversas guerras.

Mesmo assim, enquanto à população restava se contentar com a medicina “milenar”, a elite governante continuou fazendo questão de ter acesso às mais modernas técnicas da medicina ocidental. O médico pessoal de Tsé-Tung, Li Zishui, havia estudado em uma escola de medicina gerida por americanos, e além de Mao, tratava apenas de alguns poucos parentes e amigos próximos. Li tinha à sua disposição as drogas mais modernas, equipamentos de última geração, e até mesmo a um hospital “sobre rodas” que acompanhava Mao em suas comuns viagens pelo interior. Ou seja, mesmo os responsáveis pelo ressurgimento das práticas medicinais antigas não as utilizavam, confiando mais na medicina ocidental.

Isso acontece até hoje. Mesmo que a situação do sistema de saúde chinês não seja mais tão precário quanto antes, os mesmos motivos políticos continuam existindo, e a medicina tradicional vem ganhando cada vez mais espaço nas instituições médicas chinesas. Entretanto, a imagem de que os “orientais” se utilizam destas técnicas de maneira uniforme e harmoniosa está longe da verdade. Existem vários cientistas e institutos chineses tentando combater o avanço do que eles chamam de superstição e charlatanismo nas práticas medicinais daquele país. Além dos interesses políticos, muitos alegam que uma máfia se formou em torno de muitas destas atividades, e a falta de controle transformou a tal “sabedoria milenar” em objeto de um verdadeiro tráfico de drogas e influências em diversos círculos da sociedade chinesa.

É claro que pelo menos algumas das técnicas podem oferecer algum resultado prático, como ervas cujas propriedades medicinais já foram averiguadas cientificamente, e a acunpuntura possui algumas propriedades analgésicas verificadas. Mas o grosso das práticas não apenas não foi comprovada, como pode ser mesmo perigosa. Afinal, não se conhece a toxidade de todas as ervas empregadas, nem se exerce qualquer controle sobre a real eficácia dos tratamentos a longo prazo. Para aqueles que, novamente segundo o senso comum, vêem toda substância “natural” como benéfica, ou pelo menos inócua, cabe lembrar que substâncias como o curare, a estriquinina, a beladona, assim como diversos cogumelos encontrados em suas formas naturais estão entre os venenos mais potentes.

Os motivos para que se veja a medicina tradicional chinesa com olhos bastante atentos e desconfiados são ainda maiores do que estes, mas estes sozinhos já são suficentes, ao meu ver, para que as pessoas pelo menos pensem duas vezes antes de tomar livremente remédios a base de ervas, e nunca deixem de consultar um médico “moderno” e usufruir de toda a parafernália de equipamentos e testes desenvolvidos no último século. Eles podem mesmo parecer frios, impessoais, até amedrontadores. Mas ainda representam as melhores chances de se manter uma vida longa e saudável, inclusive segundo os chineses que têm possibilidade de escolha.

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