Delicatessen Deus-Me-Livery
Durante quase duas décadas, motivado pelo meu amor à ciência, muni-me de antiácidos e isotônicos e sai numa pesquisa de campo a respeito da fantástica culinária do que vim a chamar, muito carinhosamente, “Delicatessen Deus-Me-Livery”. Espero que esse trabalho ajude àqueles que, de uma forma ou de outra, já tenham batido de frente (por vezes com resultados traumatizantes) com tais iguarias em suas andanças pelas cidades do país:
1 - Suco Homeopático. Tendência
cada vez mais forte entre os grandes chefs deste nobre
setor da gastronomia paulistana, o suco homeopático
é aquele em que eles diluem a fruta em cada vez
mais água, até que não reste sequer
uma molécula de fruta por mol de solução.
Como na medicina homeopática, os chefs garantem
que a água lembra do gosto da fruta que estava
lá. Ca entre nós, eu tenho minhas dúvidas.
Ou talvez a minha memória é que não
seja tão boa.
2 - Pastel Asa-Delta. Essa iguaria da
culinária Deus-Me-Livery é a combinação
perfeita de uma massa fina, frita em banha de porco
com pelo menos três dias de uso (Óleo de
girassol ou outras gorduras poli-insaturadas não
servem...), recheada com uma inigualável e deliciosa
corrente de ar quente. Muito apreciada por praticantes
de esportes radicais, este requintado quitute às
vezes contém uma pequena quantidade de material
orgânico de origem não-identificável,
em homenagem aos grandes esportistas que acabaram se
esborrachando na prática do esporte que emprestou
o nome ao pastel. Acompanhamento perfeito para uma cartela
de Engoves.
3 - Salada Microbiótica. Este prato
foi desenvolvido por dissidentes da famosa doutrina
macrobiótica, que acreditam na sabedoria da Natureza.
Vocês já viram algum coelho ou vaca lavando
a salada antes de comer? Pois então. Sendo animais
exclusivamente herbívoros, e dependendo dos vegetais
para sobreviver, eles devem saber de alguma coisa que
nós ignoramos. Segundo estes argumentos, os chefs
microbióticos nunca lavam o pé de alface,
ou o maço de agrião, ou seja lá
o que for que a salada inclua. Isto, segundo eles, ainda
torna a salada mais nutritiva, devido à presença
de proteína animal e fibras na forma de pedaços
de insetos e restos de tecido epitelial e cabelos. Entretanto,
apesar de todas as vantagens apregoadas pelos seguidores
desses preceitos, a salada microbiótica não
é uma comida muito light, já que, segundo
a sabedoria popular, o que não mata, engorda.
4 - Misto Quente Holográfico. Nesta
finíssima iguaria vendida em botequins de esquina
selecionados, o principal ingrediente, que dá
nome ao sanduíche, é o presuntado holográfico.
Obtido através do cuidadoso armazenamento do
presuntado comum em depósitos especiais com a
temperatura controlada (40º C), quando pronta esta
lúdica peça proteica nos oferece o inigualável
prazer de visualizar as mais ricas obras abstratas em
holografias que abrangem todo o espectro luminoso. Para
melhor aproveitar o efeito, recomenda-se que se coma
contra a luz. Mas isso não é tudo... Pois
o sanduíche recebe o toque final ao se adicionar
o delicioso queijo vulcanizado Alpargatas e uma cremosa
maionese (ou junhonese, julhonese, etc, dependendo do
mês em que a validade venceu). Quantos não
foram os extasiados clientes que perceberam depois de
comer o sanduíche que os hologramas eram apenas
uma amostra das viagens psicodélicas proporcionadas
no dia seguinte.
5 - Pão de Queijo Dum-dum. Uma das mais perigosas iguarias da culinária Deus-Me-Livery, o pão de queijo dum-dum recebe este nome por causa de seu comportamento similar à munição especial homônima, que explode quando penetra o corpo humano. Extraído diretamente de rochas vulcânicas, ele é o exemplo mais conhecido da culinária proveniente de minas. Estudiosos afirmam que os apreciadores desta guloseima foram os principais responsáveis pela vitória do “não” no plebiscito sobre o desarmamento, mas isso ainda não foi comprovado. O que se sabe com certeza é que o pão de queijo dum-dum não mata, desde que consumido em doses moderadas, mas aumenta em muito a incidência de pedras nos rins.
6 - Coxinha Relativística. Dizem que este robusto petisco foi o responsável pelo insight mais importante da física do século XX, a de que deve haver alguma coisa ligando as aparentemente irreconciliáveis Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica. Primeiro, porque graças ao Princípio da Incerteza de Heinsenberg, o simples fato de morder a coxinha faz com que se torne impossível descobrir onde o recheio se encontra, por conta de seu comportamento similar ao de partículas subatômicas. Segundo, porque descobriu-se que através dessa coxinha a fórmula "o = mwc ²", ou seja, a quantidade de óleo (o) é igual à massa (m) multiplicada pela velocidade em que a pessoa precisa se dirigir ao banheiro, ao quadrado (wc²), que depois foi popularizada em sua fórmula genérica e=mc². Não é de se admirar que o primeiro físico que ingeriu tal petisco tenha imediatamente percebido a gravidade da situação.
7 - Pitzacoatl. Originária de um sincretismo entre remanescentes da cultura Asteca e seguidores de Erich Von Daniken, essa divina iguaria é uma homenagem aos monumentos que na verdade seriam campos de pouso para extraterrestres. Dividida em doze pedaços (às vezes treze) representando o calendário lunar, ela na verdade não é uma única pizza, mas pedaços remanescentes de várias pizzas de sabores variados que vão se unindo no decorrer da semana em uma única bandeja, representando de maneira extremamente didática o completo ciclo da vida. Apesar da controvérsia gerada por estes seguidores nas últimas décadas, parece que suas teorias têm fundamento, já que podemos constatar ao observar a pitzacoatl o aparecimento de diversas formas de vida alienígena em sua superfície, e aqueles afortunados o suficiente para saboreá-la comumente desaparecem sem deixar pistas.
8 – Combo Horóscopo. Um dos representantes mais recentes da incrível capacidade para a inovação dos chefs das cadeias de lanchonete Deus-Me-Livery, o combo horóscopo faz parte de um cardápio de 12 opções de sanduíches e acompanhamentos, que parecem muito diferentes no papel, mas que na verdade têm sempre o mesmo gosto: o do papel. Como quem os consome normalmente têm o hábito de pedir sempre o mesmo número, acaba por não perceber que está sendo enganado, e que apesar das cores e embalagens diferentes, eles estão na verdade consumindo o mesmo sanduíche, que inclui carne de primeira (se você pensar duas vezes, não come), queijo plastilizado, salada com aroma artificial de salada e molho especial – preparado especialmente para combinar com a embalagem, lugar onde ele invariavelmente termina. Há os que defendem que o combo horóscopo realmente influencie a personalidade de seus adeptos porque, afinal, como se diz por aí, você é o que você come.
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