Atlântida, um presente de grego.
Uns dois mil anos atrás, em seus
textos Timaeus e Crítias, o
filósofo grego Platão descreveu uma civilização
que teria existido 9.000 anos antes. Essa civilização,
que tinha um grande poderio militar, e teria guerreado
com os antecessores do ateniense, acabou desaparecendo
sem deixar vestígios, após uma grande
catástrofe em que sua terra natal, uma ilha,
teria sido engolida pelo oceano. Fato ou ficção?
Essa é a pergunta que pretendo responder.
A maioria das pessoas, se perguntadas,
provavelmente lembrar-se-á da “Atlântida”
como uma civilização antiga que acabou
submergindo em algum cataclismo. Poucos, entretanto,
conhecem as origens do mito e o contexto dentro do qual
este foi criado. Antes de poder discutir sobre a veracidade
dos relatos de Platão, precisamos conhecê-los.
Graças ao estilo utilizado, entre outras evidências,
é possível estabelecer uma cronologia
nos textos de Platão. Os três últimos
foram, na ordem, A República, Timaeus
e Crítias. Os dois últimos receberam
os nomes das personagens que mais contribuíram
para o diálogo. Em A República,
Sócrates expõe suas idéias com
relação à república ideal
em um diálogo com Crítias, Hermócrates
e Timaeus. Os outros três, então, recompensariam
a Sócrates com suas próprias idéias
nos próximos diálogos. Como Platão
morreu antes de poder escrever Hermócrates,
ficamos apenas com os relatos dos outros dois. Timaeus
é basicamente uma história da criação
do mundo, contada pelo protagonista, mas ela só
se inicia depois que Crítias menciona uma história
que teria sido contada a ele pelo seu avô (também
chamado Crítias), quando ele tinha apenas 10
anos de idade, num concurso de poesia no “Dia
das Crianças”, o último dia da Apatouria.
Apatouria era um festival ateniense no qual bebês,
jovens adultos e esposas recém casadas se integravam
às suas phratriai, ou espécies de clãs
familiares. Depois que Timaeus termina o seu relato,
Crítias retoma a palavra, e no próximo
diálogo descreve a sociedade da Atlântida,
fornecendo detalhes sobre suas origens, sua geografia
e cultura. O texto termina abruptamente, num momento
que provavelmente coincidiu com a morte de Platão.
Os relatos são sempre muito claros,
não deixando espaço para ambigüidades.
Ele claramente coloca a existência de Atlântida
em aproximadamente 10.000 anos antes de Cristo. Também
afirma como a história teria chegado até
Platão. O jovem Crítias a ouviu do velho
Crítias. O velho Crítias a ouviu de seu
pai, Dropides. Drópides a ouviu de Sólon,
o reverenciado poeta e estadista ateniense. E Sólon,
por sua vez, a ouviu de sacerdotes na cidade egípcia
de Saïs. Segundo estes sacerdotes, que riem da
ignorância de Sólon, os Atlanteanos teriam
guerreado com os Atenienses 8.000 anos antes. Perdoem-me
os crentes, mas me parece uma história um tanto
difícil de se acreditar. Além de qualquer
dúvida, não existia escrita, nem sacerdotes,
nem mesmo um civilização egípcia
11.000 anos atrás. Além de precisar a
data, Crítias também é bastante
específico com relação à
localidade. Ela se encontra no oceano, além dos
“Pilares de Hércules”. Ou seja, fora
do Mediterrâneo, em algum lugar distante do Oceano
Atlântico. Ele também afirma que onde antes
existia a ilha, ficou apenas um lamaçal intransponível,
criado quando esta afundou.
Se quisermos comprovar a existência
dessa civilização, precisamos nos ater
às descrições. Quanto mais nos
afastarmos delas, menos sentido o próprio relato
de Platão fará, o que automaticamente
lhe retirará a validade. Quando algum pesquisador
diz que na verdade Platão se referia à
ilha vulcânica de Santorini, que teria afundado
em uma erupção repentina em 1.500 ac.,
está não só alterando a data drasticamente,
mas também a localização da ilha.
Pior ainda, alguns pesquisadores já propuseram
que a Atlântida na verdade ficava num lago na
Bolívia, enquanto outros dizem que ela teria
ficado na Antártida. Obviamente, nenhum dos dois
é “um lamaçal intransponível
onde antes existia um oceano”. Essas e outras
teorias modificam tanto a própria lenda que perdem
totalmente a sua validade. É como dizer que o
Rei Arthur existiu, mas na verdade atendia pelo nome
de Cleópatra e morava no Egito.
Se o relato de Platão foi totalmente
ficcional, qual seria a sua intenção?
Todos os textos obviamente expõem os pensamentos
de Platão e suas peculiaridades. Entre elas,
está a utilização de histórias
fantásticas como se fossem verdadeiras, com o
intuito de comprovar algum argumento. No próprio
A República, Sócrates defende
que a educação deveria conter ambos fatos
e ficção, começando pela ficção,
justamente no período em que as crianças
estariam mais maleáveis e as impressões
que desejássemos incutir deixariam marcas permanentes.
Sob este contexto, a personagem Crítias
torna-se bastante interessante. Em primeiro lugar, ele
era o tio-avô de Platão. Ele também
era um dos “trinta tiranos” que tomou o
poder em Atenas depois da Guerra do Peloponeso. Ele
era anti-democrata e pró-Esparta. Não
é por acaso que o Estado “ideal”
descrito por Sócrates é essencialmente
anti-democrático e muito parecido com a sociedade
espartana. Como notou o filósofo moderno Karl
Popper, ele defendia o uso de “mentiras brancas”:
foi o primeiro a defender a manipulação
na propaganda do Estado. Desta forma, Atlântida
diz mais respeito à sociedade ateniense do que
a uma civilização perdida no fundo do
oceano. O festival no qual o velho Crítias conta
sua história para o jovem Crítias também
deixa algumas pistas. Pois os ensinamentos passados
no festival são justamente um exemplo da mistura
de realidade e ficção proposta primeiro
por Sócrates.
Não existe nenhuma evidência
de que Atlântida tenha existido além da
imaginação de um peculiar filósofo
grego chamado Platão. Qualquer trecho da história
que possa conter referências a algum fato verdadeiramente
ocorrido o faz apenas na medida em que qualquer relato
ficcional contém pelo menos algumas experiências
baseadas na realidade. A lenda não passa de uma
“mentira branca”: uma história inventada
sobre o passado, mas com uma moral que deveria deixar
marcas no presente. O que Platão não pode
imaginar é que tal lenda seria tão eficiente
que deixaria marcas até mesmo 2.000 anos no futuro.
Mesmo que sejam as marcas erradas.
Voltar