O Antiquário
“- Bom dia, meu rapaz!”
Aquela frase ressoou pela minha mente por alguns instantes até eu notar que havia cochilado de novo. Abri os olhos e levantei a cabeça assustado, tentando localizar, em princípio sem muito sucesso, a origem daquele som. Aos poucos a imagem foi ficando mais nítida, e pude notar que se tratava de um senhor grisalho, usando um chapéu fora de moda já há algumas décadas e um terno cinza-esverdeado cuja cor eu não saberia dizer se era a original. Tentei recuperar um pouco da minha compostura ao mesmo tempo em que limpava a saliva que havia escorrido pelo canto da boca:
“-B-bom dia! Perdoe-me a indelicadeza,” – disse eu, um certo tom de vermelho preenchendo a minha face - “Normal-mente acordo com os sininhos da porta. Acho que o cansaço bateu muito forte dessa vez. Em que posso ajudá-lo?”
“- Não se preocupe, meu jovem. Eu é que peço desculpas pela minha abordagem repentina. Talvez devesse ter passeado um pouco pela loja, que diga-se de passagem tem coisas muito interessantes. Por vezes esqueço dos meus modos. Se você me permitir, antes de lembrar deles novamente gostaria de vê-lo satisfazer a curiosidade desse velhinho: Por que o cansaço? Certamente estás em plena flor da idade.”
“- Ah... Talvez seja esse mesmo o motivo. O senhor tem razão quanto à loja, e eu gosto de estar aqui, mas o que eu queria mesmo era poder viajar pelo mundo em vez de apenas ler a respeito. Só que a loja mal recebe clientes suficientes para que eu mantenha as portas abertas, quando muito. Se não fosse pela promessa que fiz ao meu pai quando ele faleceu, de que cuidaria do que ele conseguiu montar com tanto carinho, a essa altura estaria em algum lugar bastante distante. Mas juntando os estudos e o segundo turno trabalhando como garçom, fora outros bicos esporádicos, não sobra muita disposição para o tempo que eu passo por aqui. Às vezes tenho vontade de desaparecer...”
“- Não fale assim, meu caro! Aliás, isso me fez lembrar da história do Lino, um antiquário que viveu no começo do século passado. Talvez ela te mostre que por vezes é bom ter cuidado com o que se deseja...”
“- Pois conte-me essa história então, meu senhor. Não é como se eu tivesse que ir a algum lugar tão cedo...” – respondi. Um enorme sorriso se formou em seu rosto, e em seguida ele começou a contar a história, todo empertigado:
“- Os livros eram a grande paixão de Lino. Já as pessoas, bem, digamos que ele não fizesse questão da existência delas. Entre os livros, ele apreciava particularmente aqueles bem velhos e obscuros, e procurava por livros de magia de verdade. Não esses livros ditos “esotéricos” de hoje, escritos por charlatães ou gente desmiolada. Mas verdadeiros livros sobre o oculto.”
“- Um dia, depois de décadas de buscas por sombrias bibliotecas particulares, finalmente encontrara o que procurava. Esse livro, cujo nome não vem ao caso, havia pertencido à biblioteca do famoso “mago” Aleister Crowley, que aparentemente nunca descobrira o que tinha em mãos. Porcaria de mago, esse Aleister. O tomo trazia em seu interior rigorosas instruções para a execução de um ritual que conjuraria uma criatura arcana de imenso poder, similar aos famosos “djinnis” da mitologia árabe. Lino seguiu à risca a receita cabalística, e ao final de dias entoando os encantamentos, lá estava a criatura, em meio a uma nuvem de fumaça, no centro do círculo protetor desenhado por Lino. Pelas regras da evocação, ela seria obrigada a atender aos desejos de quem a conjurou, desde que em troca recebesse um presente à altura. Depois de passar milhares de anos no limbo, tal ser maravilhou-se com a criatividade dos humanos, que, sem conhecer um pingo de magia, engendraram tantos mecanismos interessantes desde a sua última visita. Para uma criatura de magia, isso talvez fosse como um ser humano apreciando a engenhosidade de um formigueiro, mas o fato é que eles selaram um acordo: para cada favor que Lino pedisse, ele a presentearia com uma invenção humana.”
“-Logo a criatura percebeu que gostaria de conhecer mais do que Lino seria capaz de oferecer, mas não tinha como escapar do círculo protetor, a não ser que seu captor falecesse, ou a libertasse voluntariamente. Ela não poderia por vontade própria causar qualquer mal que fosse a ele, protegido que estava pelo encantamento. Convencida de que Lino nunca a libertaria, e preferiria mandá-la de volta para o limbo, mesmo que isso significasse não ter mais seus favores, acabou por se resignar com a sua condição de refém.”
“- Não me diga que o senhor acredita nesse lance de criaturas sobrenaturais, magia e afins?” – perguntei, incontido.
“- Deixe-me terminar, meu rapaz, e então julgue por si mesmo... O que Lino mais queria na vida era poder desaparecer. Nunca mais ter que lidar com as pessoas, mas ao mesmo tempo ter acesso a qualquer lugar, qualquer livro em que conseguisse colocar as mãos. Trocando em miúdos, Lino queria ser invisível. Mas era algo que demandaria muita magia, e ele ainda não havia encontrado um artefato à altura. Até que um dia ele descobriu a existência do que seria o primeiro relógio de bolso, construído em 1524 pelo chaveiro alemão Peter Heilen, e que mais tarde teria ido parar nas mãos de Henrique VIII. Certamente tal relíquia estaria à altura desse favor. Lino gastou uma verdadeira fortuna e chantageou muitas pessoas, mas finalmente conseguiu se apoderar do objeto. Assim que viu o relógio, a criatura percebeu que ele era era retribuição suficiente, e concordou prontamente em satisfazer o seu desejo. Mais um longo ritual foi executado, e nele a criatura utilizou seus poderes mágicos para tornar Lino permanentemente invisível.”
“- Ele então finalmente conseguiu o que queria!” – Disse eu, com certo entusiasmo, me esquecendo por um momento do meu ceticismo quanto a essa história – “Devo dizer que eu o invejo!”.
“- Não seja precipitado, meu caro! Pois a transformação teve um imprevisto efeito colateral. Lino era agora completamente transparente à luz, o que impedia qualquer pessoa de enxergá-lo. Mas suas retinas, ao se tornarem transparentes, perderam também a capacidade de absorver a luz. No exato instante em que ficou invisível, Lino também ficou cego. A surpresa foi mútua, mas Lino achou que havia sido traído. Tentou persuadir a criatura a desfazer o feitiço, mas regras eram regras. Cego, não conseguiria encontrar algo para oferecer, nem ler os encantamentos que a baniriam de volta para o limbo. Tampouco pôde notar o sorriso na face dela quando esta percebeu a imensa ironia da situação. Por fim, enlouquecido de ódio, e tateando pelo seu estúdio às escuras, acabou desfazendo sem querer o círculo de proteção que mantinha seu refém sob controle. Você pode presumir que isso não foi propriamente um final muito feliz para ele.”
“-É, acho que não.” – disse eu, e em seguida refleti a respeito – “Compreendo a lógica dessa sua história. Por vezes queremos tanto alguma coisa que não percebemos os custos ocultos a que estaremos sujeitos para obtê-la. Em vez de acabar com a minha saúde num trabalho do qual não gosto, além das horas que já passo aqui, talvez eu devesse investir mais tempo em tornar a loja um bom negócio, e assim quem sabe conseguir o que quero, a minha sonhada liberdade.”
“- Garoto, você aprende rápido. E pra demonstrar isso, vou chegar ao assunto que me fez entrar na sua loja pra começar. Estou visitando antiquários há anos, procurando por um dos primeiros protótipos comerciais de rádio construídos por Marconi. No último lugar em que estive, me informaram que o antigo proprietário daqui era um grande apreciador de rádios antigos.”
“- Isso é verdade. Meu pai comprou um rádio como essse de um imigrante que havia fugido do regime facista de Mussolini. Era a única coisa de valor que ele tinha conseguido trazer consigo da Itália, mas precisava de dinheiro e, comovido, meu pai pagou muito bem por ele. Mas não tenho um boa notícia. Já não funcionava naquela época, está em péssimo estado. Além disso, tinha valor sentimental para o velho... Não sei se seria correto eu vendê-lo...” – Quando disse isso, vi a face do velhinho murchar de tristeza, e seus olhos marejarem. Então tomei uma decisão – “Ah... Quer saber de uma coisa? Se o senhor realmente procurou tanto por esse rádio, deve ser um grande apreciador. Meu pai não gostaria que eu o vendesse, mas certamente não se oporia a que eu o desse para alguém como o senhor.”
Seus olhos voltaram a brilhar, como os de uma criança que havia finalmente recebido o presente de natal pelo qual esperara o ano inteiro: “- Isso é muita bondade sua, meu jovem. Seu pai tinha razão em querer que você cuidasse do antiquário. Alguma coisa me diz que com essa sua nova dedicação, ele se tornará um ótimo negócio.”
Embrulhei o equipamento e entreguei a ele, que o envolveu com o cuidado de quem segura um bebê, e, agradecendo, virou-se para ir embora. Antes que ele saísse, no entanto, perguntei apressadamente:
“- Ah, senhor... Me desculpe, mas por acaso o senhor tem horas? Eu não faço idéia de quanto tempo acabei cochilando...”
Ele parou e enfiou a mão no bolso do paleto. Tirou de lá um objeto redondo, dourado, preso por uma corrente e que eu creio já ter visto em um retrato de Henrique VIII. Olhou para o interior do objeto, e disse: “ – Pra ser franco, não sei dizer. Esse relógio na verdade não funciona muito bem.” - Piscou, e saiu pela porta.
Dessa vez eu ouvi os sinos. Os da porta, e os que não paravam de bater dentro da minha cabeça.
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