Alta Voltagem

O céu escuro se estendia sobre mim, sem estrelas visíveis. O vento carregava o odor característico da chuva que se aproximava. Um pouco adiante, um grupo de skatistas se divertia com um half-pipe improvisado com fórmica e caixas de frutas. Dobrei a esquina e continuei em meu caminho, para longe deles. Entrei pela abertura que indicava Estação Sé do Metrô. Atravessei a catraca e desci as escadas para embarcar no sentido Barra Funda.

Quando as portas se abriram, em passos comedidos dirigi-me ao fundo do vagão, escolhendo um banco do qual poderia enxergar o vagão inteiro sem mexer a cabeça. Força do hábito. Quando se vive do que eu vivo, é preciso estar atento aos detalhes.

“Alta Voltagem”.  Não, não tinha nada a ver com eletricidade. Pelo menos não diretamente. “Alta Voltagem” era o nome da mais nova droga da moda. Graças às suas variações de preço, que acompanhava o grau de pureza, estava se espalhando rapidamente tanto pelas classes altas quanto as menos favorecidas. O nome vinha da sensação proporcionada quando a droga, levada pelo sistema sanguíneo, chegava aos vasos capilares e atingia as terminações nervosas na epiderme. A substância causava um círculo de auto-alimentação no sistema nervoso, fazendo com que os sinais elétricos fossem se acumulando, gerando primeiro uma sensação de formigamento, como um leve choque, que aumentava por todo o corpo até que o excesso de estimulação ativava o sistema de comporta e a descarga de neuro-supressores resultante praticamente desligava o sistema nervoso central. Isso oferecia ao usuário aparentemente as mesmas sensações descritas por pessoas que estiveram à beira da morte, durante os vários minutos necessários para que os neurônios reestabelecessem seu potencial eletro-químico e a pessoa voltasse ao estado consciente. O que os infelizes não sabiam é que o uso repetido da droga causava a morte em poucas semanas. A última visão da luz no fundo do túnel escuro era a provavelmente genuína, com a morte cerebral acompanhando-a em questão de segundos.

“Estação Terminal Barra Funda, desembarquem pelo lado esquerdo do trem” – Soou a voz impessoal nos auto-falantes, me trazendo de volta dos devaneios. Esperei que todos saíssem antes de me levantar e os seguir em direção à saída. Minha mente estava em outro lugar.

“- Ei, cara... É claro que eu não estou mentindo! “– Disse o informante. “– Você sabe que eu não quero ter problemas com a Lei. Nosso acordo é que eu te forneço as informações que você precisa, e você me deixa seguir a minha vida em paz!”. Antes de deixá-lo, minha testa acidentalmente foi de encontro ao seu nariz, sangue escorrendo. Refreei com esforço a minha vontade de acabar com ele ali mesmo. “- É bom que não esteja, ou eu voltarei para terminar o serviço.” Convencido de que ele estava ciente da hierarquia entre nós, o deixei e comecei a elaborar um plano de ação.

Segundo ele, o próximo grande carregamento de “Alta Voltagem” para São Paulo chegaria num caminhão cujo destino era um armazém semi-abandonado perto da Estação Barra Funda do Metrô. No dia determinado levantei mais cedo, e me preparei como de costume. Se tudo corresse bem, não precisaria dela, mas como medida de precaução  coloquei a pistola com silenciador no coldre especial embaixo do sobretudo, e segui para o meu encontro com Nikolai, o russo de um nome só radicado no Brasil que também ocupava o cargo de maior traficante de “Alta Voltagem” do país. Rumores indicavam que a droga era derivada de uma arma química desenvolvida nos laboratórios da antiga União Soviética e que caíra na mão de criminosos quando esta se desmanchou. “- Nikolai... Mal posso esperar”.

Enquanto seguia a pé pelo caminho entre a estação e o armazém, a imagem da pequena Ana não saía da minha mente. Pequena, frágil, doce Ana. Ah, se eu pudesse voltar atrás... Se eu tivesse refreado meus instintos mais básicos e resistido. Se não tivesse entrado na minha vida, aquela figura angelical talvez ainda estivesse viva. Fui fraco e inconseqüente. Não sei se subestimei o efeito que eu teria sobre ela, ou o efeito que ela teria sobre mim, mas pouco tempo depois percebi que havia cometido um terrível engano. Tentei convencê-la de que se envolver comigo colocaria a vida dela em risco. Disse que éramos diferentes demais, que nunca daria certo. Tentei de modo gentil, depois de modo mais brusco. Quis acreditar que se eu desaparecesse ela retomaria a sua vida, seguiria em frente, encontraria o príncipe encantado que ela inocentemente ainda esperava, construiria uma família e seria feliz para sempre.

Quando arrombei a porta do seu apartamento, ela já estava morta havia algumas horas. Não restava nada que eu pudesse fazer, a não ser carregar o arrependimento para o resto da minha vida. A seringa ao lado, no entanto, e as ampolas jogadas em um canto, me proporcionaram uma outra motivação. Ela morrera de uma overdose de “Alta Voltagem”. Talvez fosse para deslocar um pouco da responsabilidade pelos meus atos para os ombros de outra pessoa, mas seria correto dizer que minha ações dessa noite tinham um caráter pessoal. É claro que ser o líder do tráfico de uma droga nova acabaria colocando Nikolai no meu caminho cedo ou tarde, mas eu teria um prazer especial na condução do meu plano dessa vez, matando os dois coelhos proverbiais.

Cheguei ao local de entrega duas horas antes do horário programado, e vasculhei cuidadosamente todo o perímetro. Rompi o cadeado de uma porta lateral com um golpe certeiro da bota e repeti a busca no interior do armazém, procurando pelo esconderijo adequado e montando um plano mental de como os marginais conduziriam a operação, com base no layout do galpão repleto de containers abandonados.

Dez minutos antes da hora combinada, com um barulho repentino a porta de correr vertical se abriu e logo depois o caminhão entrou no galpão. O motorista desceu enquanto o outro fechava a porta novamente, e se dirigiu à traseira do baú. Soltou as travas da porta, e de dentro saíram mais dois marginais, armados com fuzis AR-15. Os quatro ficaram aguardando ao lado do caminhão pela chegada do patrão. Por enquanto, tudo seguia conforme planejado.

Alguns minutos depois, o barulho de uma porta de carro se fechando deu lugar a ligeiras batidas na porta de correr, que se abriu novamente. Aquele que havia batido afastou-se para um lado para dar passagem às duas blazers pretas com vidro escuro, que pararam uma de cada lado do caminhão. Ao todo, mais cinco capangas e o cabeça, Nikolai, se amontoaram próximos ao caminhão, armados com fuzis ou pistolas automáticas. Como estava com pressa, resolvi adotar o plano direto.

Irei poupá-los de uma descrição mais gráfica dos momentos que se seguiram. Basta dizer que por volta de três minutos depois nove bandidos se encontravam caídos no chão, alguns com buracos de bala em sua testa, outros com o pescoço partido. Fui um pouco descuidado, e o ombro direito, atingido por um tiro de raspão, ardia levemente.

Nikolai, na outra ponta do meu braço direito, finalmente despertou e me fitou como se estivesse frente a frente com o próprio demo. Quando tentou se mexer e não conseguiu, percebeu qual seria o seu destino. Um dúzia de seringas se projetavam para fora de seu tórax, ampolas quebradas no chão em volta. Sua boca se mexia, mas nenhum som saía dela. Não sei se porque a droga já estava fazendo efeito, ou se porque eu estava esmagando a sua faringe. Suas pernas se mexiam levemente, os pés alguns centímetros acima do chão.

Alternei o olhar entre o pavor nos seus olhos e os ponteiros do meu relógio por mais um minuto e, satisfeito, puxei-o para mim e cravei meus caninos em seu pescoço, sorvendo o líquido quente que dele jorrou. Livrei-me da casca vazia e me sentei, esperando – não, torcendo – por algum resultado. Senti o gosto da droga em seu sangue, e um ligeiro formigamento na boca, mas foi só. Soltei um urro de frustração que, não fosse pela sinfonia cacofônica criada pela chuva torrencial que caía nas calhas de metal do teto, teria acordado qualquer um em um raio de mais de um quilômetro. Não seria dessa vez que meu tormento terminaria.

Quando fui transformado no que sou hoje, mais de duzentos anos atrás, me tornei incapaz de metabolizar qualquer composto que não fosse o sangue humano, de preferência ainda quente... Infelizmente, essa não foi uma notícia muito boa para um viciado em ópio. Quando você fica muito tempo sem assimilar a droga, ou você morre, ou se livra do vício. Infelizmente, no meu caso, nenhum dos dois é possível. Enlouquecido, suguei a vida do meu criador, que aprendeu muito tarde a não dar as costas a um vampiro sedento de mais que simples vingança. A dor, no entanto, não foi embora. Sem saber, destruí o único que poderia acabar com o meu sofrimento. A luz do sol, se muito, me deixa um pouco letárgico, e faz a dor aumentar. Tento aplacar a minha síndrome de abstinência, procurando por uma nova substância que, se não me matar, pelo menos tenha algum efeito sobre mim. Injeto a droga nas minhas vítimas antes delas morrerem, para absorvê-la junto com seu sangue, mas obviamente ainda não obtive sucesso. Para aumentar a minha frustração, a morte de Nikolai não eliminou nem um pouco da minha culpa a respeito da pequena Ana. Não adianta pensar que o único momento em que a dor quase se foi nesses anos todos foi enquanto estive com ela. Que fiz o que achei que seria melhor pra ela, e não pra mim. Essa culpa, parece, realmente carregarei até o fim, se ele um dia chegar.

Deixei os corpos, e a droga inútil no baú do caminhão, para quem quer que os achasse. Isso não me importava mais. Continuarei tentando, no entanto, encerrar um dia o meu martírio. Não é como se eu tivesse alguma escolha. Você pode pensar que sou um cara mau. Mas não sou. Não sou mau, nem bom. Sigo apenas uma moral. A da Lei da Selva. A lei natural e inexorável que fez de vocês caça e de mim caçador, mas que não eliminou em mim a capacidade de amar, e de sofrer por amor.

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