O Dia Em Que A Terra Parou

Na televisão, um confuso Bush espalha sentimentos de vingança e diz que os EUA não serão derrotados pelo terrorismo. Mal percebe o pobre governante que, não importa quantos árabes morram com o desenrolar dos acontecimentos de hoje, os EUA já foram derrotados. A busca por culpados, necessária, abranda um pouco o próprio sentimento de culpa gerado por uma política de isolacionismo e de inércia frente a importantes situações internacionais. Mais uma vez, não importa quantos culpados se ache, Bush terá às suas costas a sombra de ter sido pelo menos parcialmente responsável pela morte de dezenas de milhares de pessoas. Seu próprio povo.

E aumentam as baixas causadas diretamente por credos religiosos. Hoje, Religião mata mais que AIDS, mata mais que o Câncer. O fanatismo religioso atua como agente transmissor de memes, vírus metalingüísticos extremamente poderosos, que em sua propagação, avidamente tentam destruir os memes inimigos. Católicos e protestantes, judeus e muçulmanos, não importa. O fato é que atentados como o de hoje, em que dezenas de terroristas encontram a morte como heróis, certos da honra almejada, só são possíveis quando há o suporte da crença religiosa que glorifica o além-vida. Mesmo que no fundo existam componentes políticos que não podem ser desprezados, a religião é que fornece a amálgama para que se espalhe a ignorância, o segregacionismo, o desprezo pelo diferente.

Mesmo que seja condenável uma nação acobertar indivíduos capazes de planejar os atos hediondos de hoje, em nome da justiça muitos outros inocentes perecerão. Não importa se são magnatas de Wall Street ou mendigos nas favelas do Afeganistão, o peso da perda de vidas humanas é o mesmo. Só não se percebe que “Justiça” é um termo arbitrário, inventado pelos homens para aplacar a dor e a ira dos que vivem o duro papel de vítimas da crueldade, seja humana ou não. O mundo não é justo, a natureza não é justa, e em sua tentativa de mudar isso, o homem continua matando a si mesmo. Justiça não trará os mortos de volta. Nem os de hoje, nem os de amanhã.

Ditos “especialistas” em construção e destruição opinam sobre o ocorrido, em busca dos seus 15 minutos de fama. Dizem que explosivos devem ter sido colocados nas bases dos prédios, que o impacto dos aviões apenas não seria suficiente para derrubar as torres. Talvez ofuscados pelo brilho das câmeras, não percebem o óbvio que os vídeos mostraram: as torres caíram de cima para baixo. O calor de milhares de graus gerado pelos incêndios enfraqueceu as vigas de sustentação, de aço, que cederam ante o peso dos andares acima dos impactos, e a partir daí foi a lei da inércia esmagando tudo caminho abaixo.

Videntes ouvintes e falantes se pronunciam. Afirmam que o ocorrido estava escrito nas tramas celestiais, nas tramas astrais, nas tramas da tapeçaria cósmica, ou nas tramas de seja lá o que for que esteja na moda. Mas a verdade é que antes da manhã de hoje, 11 de setembro de 2001, ninguém em sã consciência, com exceção dos poucos que concatenaram os atentados e os que os protegiam, imaginaria que as duas torres poderiam vir a baixo num irônico ataque impulsionado pelas próprias turbinas de aeronaves americanas. O que parece óbvio depois de ocorrido, era impensável minutos antes, mesmo para os que festejavam nas ruas de Beirute.

Atribui-se a versos obscuros de Nostradamus a profetização dos atentados. Encontram-se coincidências onde se quer encontrá-las. Para a maioria, é fácil acreditar que um obscuro charlatão medieval tivesse o poder de desvendar os mistérios do futuro. Seus versos, estudados por milhares de pessoas em todo o mundo, aguardam apenas pela devida catástrofe para se propagarem. Têm o tempo a seu favor. Entretanto, qualquer outra explicação seria mais plausível. Para os que não se contentam com o acaso, existe até mesmo a possibilidade de que os próprios terroristas já tivessem lido os versos, e obtido neles inspiração para os atentados. O que faria de Nostradamus cúmplice póstumo. Parece insólita a sugestão, mas é mais provável que a primeira. Ainda mais quando um dos possíveis terroristas freqüentava uma lista de discussão a respeito das tais profecias.

Fala-se muito em fim do mundo, em Terceira Guerra Mundial. É fato que a retaliação, neste momento, parece certa, e é possível que algum país do Oriente Médio seja expurgado do mapa nos próximos dias. Que os prejuízos econômicos, na casa dos trilhões, serão imensos. Que as incertezas políticas serão exacerbadas, e que o papel dos EUA e de outras potências do cenário mundial será reescrito. Mas os dias vão passar, as economias vão se recuperar, as relações internacionais vão se adaptar e, no devido tempo, um novo WTC se erguerá sob as cinzas do antigo, e até mesmo as vítimas serão esquecidas. O mundo poderá até ser diferente, mas amanhã a Terra voltará a girar, e assim o fará até ser engolida pelo nosso sol, em alguns bilhões de anos, salvo imprevisível catástrofe universal. Isso, aliás, Nostradamus não previu.


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