|
"Natural" NÃO é sinônimo
de "saudável"
Nos últimos anos parece ter se exacerbado o pensamento de
que tudo que é "natural" ou "caseiro"
é saudável e nutritivo, enquanto tudo o que é
"artificial" ou "industrializado" seria o contrário.
Quantas vezes já vimos as pessoas dividirem os alimentos
em "comida" e "porcaria", sendo que comida eram
os alimentos "naturais" e porcaria os alimentos "industrializados"?
Isto tem se tornado quase uma batalha entre o "bem" e
o "mal".
Uma análise mais aprofundada, que avance além do preconceito,
nos leva a crer, no entanto, que esta crença é não
só infundada, mas também perigosa em suas generalizações.
É comum existir uma certa tecnofobia no cidadão comum,
que não consegue compreender a maioria dos avanços
da ciência, que ganha, para estes, um aspecto não muito
diferente de qualquer religião. Mesmo assim, se levarmos
essa tecnofobia em consideração, o setor de alimentos
sofre uma perseguição maior do que as outras áreas
em sua maioria. Afinal, por mais que vejamos críticas aos
computadores, não é grande o número de pessoas
que defendam a volta dos textos manuscritos, que digam que antes
do advento dos processadores de textos nossa escrita era mais saudável.
No caso da tecnologia empregada em nossos alimentos, no entanto,
a perseguição é ferrenha. Talvez o fato de
o alimento estar tão intimamente ligado à "vida"
tenha contribuído para que o processo ganhasse uma conotação
meio mística, como se comida fosse algo mais do que um amontoado
de matéria orgânica e inorgânica que precisamos
ingerir para servir de combustível e matéria prima
para a manutenção e construção dos tecidos
do nosso corpo.
O que é "comida", afinal?
Nosso organismo necessita de três tipos básicos de
substâncias para seu funcionamento perfeito. Energéticas
(carboidratos, acúcares e lipídios), de construção
(proteínas e alguns minerais) e reguladoras (vitaminas e
outros minerais). As energéticas são quebradas e a
energia é utilizada para a reconstrução dos
tecidos e manutenção do metabolismo celular, com o
excesso sendo armazenado de diversas formas. As de construção
são quebradas em seus blocos fundamentais (aminoácidos)
e estes blocos são utilizados para a construção
de tecido muscular, órgãos e parte sos nossos ossos,
além de substâncias reguladoras orgânicas como
as enzimas e hormônios. Ou então, no caso dos minerais,
são combinados de diversas formas e também utilizados
na construção de tecidos (ossos no caso do cálcio,
hemoglobina no caso do ferro, por exemplo). As substâncias
reguladoras inorgânicas são utilizadas como catalizadores
e inibidores de diversos processos metabólicos do corpo.
Tendo esse panorama em vista, qualquer alimento, não importa
se um prato de arroz e feijão ou um pacote de bolachas, nada
mais é do que uma fonte de algumas ou todas essas três
substâncias. Precisamos deixar o preconceito com a aparência
do alimento para trás e analisar o seu real valor nutritivo.
Outro aspecto que precisa ser colocado em pauta é que a
grande maioria dos produtos ditos industrializados na verdade são
apenas os mesmos produtos caseiros produzidos em larga escala. É
verdade que entram no processo outras substâncias, para conservar
os alimentos ou fornecer cheiro e sabor não naturais. Mas
por outro lado os alimentos também são enriquecidos
de outras substâncias que nos são essenciais e não
existiam no alimento natural, ou se perdiam no processo de preparo.
Em muitas oportunidades, o alimento industrializado acaba sendo
mais nutritivo e balanceado do que o seu equivalente "caseiro".
Por exemplo, imaginemos o consumo de um pote de um litro de um iogurte
famoso com cereais e polpas de frutas, e três porções
de uma bolacha salgada também famosa. Será difícil
encontrar uma mãe que não se contorça ao imaginar
esta dieta para o seu filho. Mas neste caso, o iogurte e a bolacha
industrializados são muitos mais nutritivos do que seus correspondentes
naturais. Na verdade, no final de um dia, a criança que tiver
se alimentado com o iogurte e a bolacha industrializados precisará
de pouco mais para garantir uma refeição balanceada,
diferentemente da que se alimentar dos equivalentes "naturais".
Natural é sinônimo de sem fiscalização
Por fim, mas não menos importante, existe o aspecto da qualidade
dos ingredientes e da higiene na produção dos alimentos.
Um produto caseiro não sofre qualquer fiscalização,
e não existe nenhuma garantia quanto à higiene e qualidade
dos ingredientes. Se achamos que uma grande empresa de alimentos
poderia ser inescrupulosa na hora de alcançar lucros, porque
não aconteceria o mesmo com aquela senhora que passa em nossa
casa oferecendo quitutes caseiros? Uma grande empresa precisa prestar
contas aos órgãos sanitários públicos
e instituições privadas, e não pode se dar
ao luxo de ter a sua idoneidade abalada, sob pena de perder muito
dinheiro. Uma grande cadeia de lanchonetes que vive sendo alvo de
inúmeros boatos quanto à procedência de sua
carne não poderia dar-se ao luxo de comprar de fornecedores
sem aprovação do SIF, por exemplo. E o pão
que é utilizado em seus sanduíches não só
é de ótima qualidade, quanto recebe adições
de vitaminas que não existem no pão natural, e portanto
é mais nutritivo.
Eu consumo sem medo, e até prefiro, alimentos industrializados
em detrimento de alimentos naturais, sempre que pertinente. Obviamente,
a chave aqui é, como sempre, o bom senso. O que não
se pode fazer é ver todo alimento natural como saudável,
e todo alimento industrializado como pernicioso. Afinal, o curare
é natural mas nem por isso vou incluí-lo em minha
dieta diária.
Estamos nos aproximando de períodos complicados na história
humana. O homem sempre teve dificuldade para produzir alimento necessário
para alimentar a todos, mas atualmente, com a explosão populacional,
o problema vem aumentando, com cada vez mais gente passando fome.
Uma forma de resolver isso é dividir melhor a renda e a comida.
Outra é aumentar a produção de alimentos. Neste
segundo, a tecnologia tem um papel fundamental tanto para aumentar
a quantidade de alimento, quanto barateá-lo e aumentar a
sua qualidade. Não vejo como muito distante no futuro um
momento em que não precisaremos mais cultivar os alimentos
em suas formas naturais, mas nos utilizaremos de bactérias
e leveduras modificadas que sintetizarão nossos alimentos
de maneira mais barata, limpa e saudável. E muitos de nós
podem até viver o suficiente para ver o início desse
processo.
|