Se não pode vencê-los, junte-se a eles. (Ou como uma festa pagã se tranformou no maior feriado cristão).

Dia 25 de Dezembro é a data mais importante para os cristãos. Afinal, é a data do nascimento de Jesus Cristo. Ou será que não? A dúvida nos remete à Bíblia. Onde estará em suas páginas a indicação da data para a Natividade? Em nenhum lugar. Esse é um mistério que a Bíblia não elucida. Na verdade, se formos nos basear na Bíblia para tentar encontrar um período provável para o nascimento, iremos justamente deduzir que o período mais impróprio seria Dezembro.

A primeira indicação deste fato vem da tentativa de São Lucas de resolver o paradoxo: Como poderia Jesus de Nazaré ter nascido em Belém. Digo tentativa, porque nem de perto ele consegue contar uma história convincente. Quando a gravidez de Maria estava em seus estágios finais, Herodes, que governava a Galiléia sob os auspícios do Império Romano, teria ordenado um enorme censo, sob ordens de César Augusto, para organizar a coleta de impostos. Segundo Lucas, todos os habitantes teriam sido ordenados a voltar para suas cidades natais, e por isso José, seguindo a tradição da descendência de Davi, teria retornado a Belém. Enquanto essa história pode ter ficado bonita no papel, na prática ela é improvável, ainda mais se pensarmos em Dezembro, pleno inverno, como data para tal evento.

O inverno seria a época mais imprópria para o nascimento de Cristo

Na época, havia um reino, a Pártia, disputando com Roma a soberania sobre as terras da Cananéia. Eles eram militarmente fortes o suficiente para derrotar o exército Romano na região se houvesse qualquer desleixo por parte destes. Fica difícil então imaginar que Roma, sob a constante pressão dos Pártios, iria ordenar um senso que obrigasse milhares e milhares de pessoas a viajarem pelo país, congestionando as estradas, em pleno inverno, período mais perigoso para se viajar, deixando a província pronta para ser invadida pelos seus inimigos. E tem mais... Os judeus nunca aceitaram passivamente a soberania romana, e criaram revoltas por motivos muito menores do que esse. O mais provável é que esse senso nunca aconteceu, e foi utilizado por Lucas como recurso literário para endossar a messianidade de Cristo. Mas mesmo aceitando o fato como sendo verdadeiro, alguém poderia imaginar um mulher em seu período final de gestação fazendo uma viagem de centenas de quilômetros em lombo de mula, em pleno inverno? Fica difícil.

Lucas também relata que nas proximidades do local onde Cristo teria nascido havia pastores fazendo fazendo a vigília de seus rebanhos durante a noite. Mas porque os pastores fariam vigília de noite no frio do inverno? Seria muito mais plausível imaginar os pastores fazendo a tal vigília no verão, quando a noite forneceria um clima muito mais ameno do que o escaldante calor do dia.

Então porque 25 de dezembro?

Mas se Dezembro é um período tão impropício para o nascimento de Cristo, e a Bíblia não menciona nenhuma data, porque a escolha justamente de 25 de dezembro? Curiosamente para responder a essa pergunta alguém tem que olhar para o lado oposto da Bílbia. Para os cultos pagãos em evidência na época.

A altura do Sol do meio dia no céu varia no decorrer do ano devido à inclinação do eixo de rotação da terra. No período de maior calor, o solstício (do latim significando "parada do sol") de verão, o sol está em seu ponto mais alto. Depois, de junho a dezembro o sol vai "baixando" no céu até acontecer o solstício de inverno (ambos para o hemisfério norte, onde se passa a história. No hemisfério sul se dá o contrário). Para os povos primitivos, que não compreendiam os movimentos do sol segundo preceitos astronômicos, não existia nenhuma certeza de que o sol voltaria a se erguer todos os anos, garantindo a continuidade do ciclo da vida. Portanto sempre aconteceram grandes festivais em comemoração ao "renascimento" do sol. Na Roma antiga, estes festejos recebiam o nome de Saturnália, em homenagem a Saturno, o deus romano da agricultura.

Na Saturnália, em que se festejava a vitória da vida sobre a morte, todos os negócios eram suspensos, e mesmo aos escravos eram garantidos direitos de cidadãos pelos 3 dias que os festivais duravam. Naturalmente essa alegria toda originava algumas atitudes que as pessoas mais puritanas na época achavam extremamente repugnantes. No calendário romano de antes de Julio César, que era muito errático, a Saturnália era festejada nos dias 17, 18 e 19 de dezembro. Quando César instituiu o seu novo calendário, muito mais coerente, o solstício de inverno caiu no dia 25 de dezembro (apesar de que hoje, no nosso calendário ligeiramente modificado, ele acontece no dia 21...).

Além disso, nos seus primeiros séculos, o cristianismo tinha como rival uma religião chamada Mitraísmo, uma forma de culto ao Deus-Sol com raízes persas, e no ano 274 o imperador Aureliano instituiu oficialmente o dia 25 de dezembro como o dia do nascimento do Sol. Em outras palavras, ele tornou oficial o principal feriado do Mitraísmo.

Cristianismo pagão

Essas celebrações foram por muito tempo um grande obstáculo ao cristianismo. Se as festividades fossem consideradas puramente pagãs, muitas conversões seriam perdidas. E mesmo que as pessoas estivessem dispostas a abandonar as crenças nos antigos deuses romanos e persas, elas não estavam dispostas a abrir mão das festividades (Como hoje muitas pessoas festejam o Natal sem ter a menor idéia do que ele significa de verdade).

Entretanto, era política dos líderes cristãos na época se adaptar a costumes pagãos que não comprometessem as doutrinas essenciais da Igreja. Já que a Bíblia não mencionava uma data para o nascimento de Cristo e nenhum dogma seria afetado, porque não fazer do dia 25 de dezembro esse dia? Assim, uma vez que a data havia sido adotada oficialmente, os pagãos poderiam se converter ao cristianismo sem abdicar das alegrias da Saturnália. Para tanto era apenas necessário festejar o nascimento do Filho de Deus ao invés do nascimento do Deus-Sol.

O dia 25 de dezembro foi gradualmente adotado na maioria do Império Romano entre os anos 300 e 350, fato evidenciado justamente pela própria data. As civilizações antigas do Mediterrâneo usavam dois tipos gerais de calendários: o lunar, que marcava os meses pelas fases da lua, e havia sido criado pelos babilônios e passado aos gregos e judeus; e o Solar, que criava os meses de acordo com as estações do ano, desenvolvido pelos egípcios, e passado para os romanos, e mais tarde, para todos nós.

Como o calendário lunar não se encaixava nas estações do ano, para fazer com que ele não se desviasse demais, alguns anos tinham 12 meses e outros 13, num padrão razoavelmente complexo. Para quem usa o calendário solar, o ano lunar de 12 meses é mais curto, e o de 13 mais longo. Uma data que seja fixa no calendário lunar fica mudando de ano em ano no calendário solar, oscilando num período específico do ano.

Os feriados mais antigos da história da Igreja, como a Páscoa, fizeram uso do calendário lunar, e por isso seus dias específicos mudam de ano para ano. Mas quando a Igreja começou a se expandir pelo Império Romano, notadamente no século IV, o calendário romano passou a ser mais utilizado, e isso gerou grandes problemas, cismas e acusações de heresias com relação aos feriados que seguiam o calendário lunar. Para evitar estes problemas, os feriados estabelecidos mais recentemente já passaram a adotar o calendário romano desde o começo. Portanto, o simples fato do Natal ser celebrado todos os anos no dia 25 de Dezembro é suficiente para mostrar que ele não foi estabelecido como uma festa religiosa até depois do ano 300.

Dito isto fico a imaginar como sentir-se-iam os beatos das várias ramificações das religiões cristãs se descobrissem que todo dia 25 de dezembro eles comemoram um feriado pagão em todos os aspectos, e se "Deus" foi perguntado pelos bispos se por ele não havia nenhum problema quanto a isso.


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