| O patriota e o futebol
Ser patriota é idolatrar a pátria.
Em sua definição literal, isto é algo perigoso,
pois idolatria não tem como referência o bom senso,
a razão, a lógica. Este patriotismo é parcial,
cego, tendencioso. Definitivamente, não se trata de um modo
saudável de ver as coisas à nossa volta. Entretanto,
poderíamos adotar uma definição de patriotismo
mais licenciosa, compreensiva, e, certamente, mais adequada à
realidade. Este patriotismo dá, sim, valor à pátria,
mas não ignora seus defeitos. O que é o primeiro passo
na direção de corrigí-los.
Expor a diferença entre estes dois tipos de patriotismo
é essencial na defesa da tese que se segue: O verdadeiro
patriota torçe contra a seleção.
Certamente esta afirmação gerará surpresa.
Como alguém pode ser patriota e torcer contra o seu país?
Realmente não pode. Entretanto, antes de ser confusa, esta
afirmação parte de um princípio muitas vezes
ignorado, mas nem por isso menos verdadeiro. A seleção
de futebol não é a pátria. A seleção
de futebol é parte de uma instituição supostamente
sem fins lucrativos financiada pela iniciativa privada, e que tem
licença para usar o nome do país em competições
internacionais. Esta instituição é a CBF. A
CBF não é subordinada ao governo do país, nem
sequer é obrigada a prestar contas a respeito da maneira
como administra seus negócios envolvendo a seleção
brasileira de futebol. Suas negociações com empresas
privadas, terminando em contratos milionários, são
tratadas como secretas, não estão disponíveis
ao público em geral. Isto não seria um problema se
não fosse público e notório o fato dessa instituição
estar longe de ser conhecida pela sua idoneidade e lisura na condução
de suas atividades.
Entre 1999 e 2001, muito se falou e fingiu que se fez a respeito.
Houve as famosas CPIs do Futebol, que geraram manchetes por muito
tempo na mídia de massa. Problemas referentes ao contrato
da CBF com uma grande fabricante de produtos esportivos foram expostos.
Diversos conflitos de interesse entre dirigentes da instituição
que também possuíam empresas particulares prestando
serviços para a CBF vieram à tona. Mas, além
de servirem de merchandising político para alguns deputados
e senadores posando de defensores da pátria, pouco resultado
adveio destas CPIs. O tempo passou, e há muito esse assunto
não gera sequer uma pequena nota na última página
dos jornais. Mais uma vez, o processo terminou em pizza. Aparentemente,
quando o assunto é futebol, tudo se perdoa neste país.
Exemplo clássico é um time de futebol criado por
um ex-senador cassado por ter participado de esquemas ilícitos
que desviaram grandes quantias de dinheiro dos cofres públicos.
Senador, aliás, que deveria estar na cadeia. Não só
está livre, como ganhou publicidade gratuita de uma mídia
que parece ingênua demais para perceber que este time de futebol
provavelmente também cumpre a função de fachada
para lavagem de dinheiro. O fato de um time de futebol com apenas
dois anos ter chegado à final de uma das competições
mais importantes do país aparentemente não gerou nenhuma
suspeita.
Em termos de matéria prima, o futebol brasileiro provavelmente
não tem igual. Não seria exagero dizer que o Brasil
poderia ter no futebol a mesma hegemonia que os EUA possuem no basquete.
Por quê isso não acontece? Porque seus administradores
são corruptos quando não são incompetentes,
porque sua organização é amadora, com exceção
das horas em que milhões de dólares estão em
jogo na forma de contratos de publicidade e dos salários
de jogadores.
Existe um outro fator complicador: O futebol é usado como
arma política. Tamanho é o amor do brasileiro pelo
futebol, que todos os imensos problemas com os quais vivemos no
dia-a-dia diminuem a cada vitória da seleção
na copa, a ponto de se tornarem inexistentes na mente do povo a
partir do momento que alguém com uma tarja amarela no braço
erguer uma taça dourada acima da cabeça. Num ano em
que também acontece um processo eleitoral, isso se torna
ainda mais perigoso. O sucesso do Brasil na copa fornecerá
um povo anestesiado que os políticos, ajudados por seus marketeiros,
poderão manipular como bem entenderem.
É com base nessas coisas que digo que o verdadeiro patriota
torceria contra a seleção de futebol. Porque talvez
apenas a decepção causada por uma eliminação
do Brasil na copa pudesse servir de beliscão para o povo
acordar e começar a lutar um pouco mais pelos seus direitos,
e cobrar melhores atitudes de seus políticos. Se não
por consciência política, pelo menos por simples mau-humor.
Quem torcer pela seleção não estará
torcendo pela pátria, mas pelo sucesso do amadorismo, da
corrupção e dos desmandos aos quais o país
é submetido diariamente, e que tornam a vida do brasileiro
tão mais difícil do que ela deveria ser.
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