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Crenças que devemos evitar - Parte I
Existem forças sobrenaturais que podem ser
influenciadas ou forçadas a proteger a humanidade.
Esta é a essência da superstição. Quando
uma sociedade primitiva com uma economia baseada na caça
é confrontada com o fato de que às vezes a comida
é farta, outras vezes é escassa, quando uma sociedade
primitiva agricultural assiste à seca num ano, e à
enchente no outro, é natural assumir, por falta de explicação
melhor, que alguma força sobre-humana organiza o mundo desta
forma. E como a natureza parece caprichosa, seria lógico
chegar à conclusão de que os deuses, espíritos,
demônios (ou seja lá qual for o nome que eles recebam)
também sejam caprichosos, e desta forma possam ser influenciados
a tomar ações que beneficiem uma sociedade.
Entretanto, ninguém assume que isto seja fácil, e
apenas os mais sábios e valorosos de uma população
teriam condições de fazê-lo. Aí nascem
os "manipuladores de espíritos", o clero, em sua
definição mais abrangente. E não estaria longe
chamar essa manipulação de "magia", afinal,
o termo vem de "magi", nome dado aos sacerdotes do Zoroastrismo.
A aceitação desta crença é quase universal.
Em todas as áreas da sociedade, seja entre os pobres ou ricos,
incultos ou intelectuais, em diferentes graus, quase todos mantém
pelo menos resquìcios dessa crença em "magia".
Quando uma pessoa coloca uma ferradura na parede, ela está
afastando a má-fortuna através do poder do ferro contra
espíritos que nunca saíram da Idade do Bronze. Também
apelamos para esta mesma magia quando batemos na madeira, por exemplo.
Muitos utilizam o argumento de que a magia sempre esteve à
nossa volta, e portanto tem que ser verdadeira. Afinal, se não
fosse verdade, as pessoas já teriam abandonado estas manias
há tempos, não? Infelizmente, a coisa não é
tão simples. Primeiro, muitas das práticas são
inofensivas. Se bater na madeira realmente funcionar, você
receberá a recompensa. Se não, nada de errado irá
acontecer. Ou seja, você não tem nada a perder. Digamos
que você bate na madeira e nada de ruim acontece. Pronto!
É claro que foi porque você bateu na madeira. Poderia-se
argumentar que se você voltasse no tempo e não batesse
na madeira, nada de ruim aconteceria do mesmo jeito, mas este é
um experimento impossível até agora. Ou digamos que
em dez dias seguidos você cruza o caminho de um gato preto
e passa debaixo de uma escada, e nada acontece. Mas no décimo
primeiro, não cruza com o gato nem passa debaixo da escada,
mas ainda assim você é atingido por uma lata de tinta.
Você poderá argumentar que se tivesse visto o gato
e passado embaixo da escada, você não teria apenas
sido atingido. provavelmente a lata de tinta teria te matado. Ou
seja, se você quiser acreditar, você irá acreditar!
Seja no que for.
Claro que existem situações em que uma crença
funciona. O ator que ouvir alguém assoviando no camarim ficará
tão nervoso que realmente gaguejará na hora de recitar
as suas falas, ou o acrobata, depois de afagar o pé de coelho,
se sintirá tão confiante que atuará de forma
perfeita. Em outras palavras, mesmo que mágica não
funcione, é verdade que a crença na mágica
pode funcionar. Entretanto, este é um risco que considero
mais prudente não correr.
E mesmo quando as crenças começam a ficar absurdas
demais para continuar a angariar seguidores, elas sofrem mutações
com o auxílio de pseudo-ciências. Assim, da mesma forma
que no passado tínhamo anjos e demônios descendo às
Terra para interferir nas nossas vidas, hoje temos OVNIs (segundo
alguns). Na verdade, acredito que a popularidade dos OVNIs venha
justamente dessa facilidade de associação à
anjos, e não é raro encontrar teorias que dizem exatamente
isso baseadas em textos sagrados obscuros.
De qualquer forma, o mais importante não é discutir
a veracidade destas crenças, e sim o fato de que elas são
mais um fator de antagonismo entre as pessoas. Afinal, é
comum o Deus de uma sociedade ser o Demônio da outra. E aí,
não existe diálogo. Enquanto as manifestações
de superstição mais brandas podem ser inócuas,
elas podem pavimentar o caminho para crenças mais fundamentalistas
e perigosas. Por isso afirmo que somente a partir do momento em
que essa crença deixar de existir, se é que isso um
dia acontecerá, poderemos sonhar com uma sociedade justa.
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